Opinião: O eleitor e a falta de consciência de classe no Brasil

A influência das elites, religião, redes sociais, coração e das disputas ideológicas nem sempre define o voto do eleitor.

MARABÁ (PA) – Na véspera da eleição 2026, o Brasil convive com uma contradição histórica: milhões de trabalhadores enfrentam dificuldades para sobreviver, enquanto uma pequena parcela da população concentra grande parte da riqueza e do poder econômico no país.

Nesse cenário, surge uma questão: o eleitor brasileiro reconhece seus interesses de classe na hora de votar? A consciência de classe significa compreender a própria posição na sociedade e como as decisões políticas afetam salários, direitos, serviços públicos e condições de vida da pessoa.

Setores da direita econômica defendem menor intervenção do Estado, liberdade de mercado e flexibilização trabalhista. Críticos dessas propostas argumentam que elas podem favorecer grupos privilegiados e ampliar desigualdades sociais. Seus defensores sustentam que estimulam investimentos e empregos para a população.

O chamado “pobre de direita” pode apoiar essas ideias por convicções religiosas, valores conservadores, preocupação com a segurança ou expectativa de ascensão econômica, mesmo quando determinadas propostas contrariam seus interesses materiais imediatos. Já o “pobre de esquerda” costuma se identificar com políticas de distribuição de renda, valorização salarial, direitos trabalhistas e fortalecimento dos serviços públicos.

Entretanto, a preferência partidária, por si só, não comprova consciência de classe. A alienação política pode existir em diferentes correntes ideológicas e essa alienação vem ocorrendo de maneira assustadora no Brasil, pois em nome de um candidato, tem gente matando pessoas da própria família.

A elite econômica, por sua vez, dispõe de recursos e influência para defender seus interesses nas decisões do Estado. A concentração de riqueza também se traduz em desigualdade de poder. Essa perversa concentração de renda sempre foi um problema no Brasil desde o período colonial.

Foto: Reprodução

A religião e a alienação da consciência de classe

A religião também pode exercer influência sobre a consciência de classe quando lideranças religiosas transformam a fé em instrumento de orientação político-partidária. Nesses casos, questões como desigualdade, exploração do trabalho e concentração de riqueza podem perder espaço para discursos morais, promessas de prosperidade individual e disputas ideológicas.

Quando a pobreza é apresentada exclusivamente como consequência da falta de esforço ou de fé, corre-se o risco de ocultar suas causas econômicas e sociais. Todavia, é importante reconhecer que muitas organizações religiosas também desempenham papel fundamental na defesa dos direitos humanos, na solidariedade e no combate à pobreza mundo afora.

As redes sociais e o enfraquecimento da consciência de classe

As redes sociais também podem contribuir para o enfraquecimento da consciência de classe. Algoritmos que privilegiam conteúdos de grande repercussão, desinformação e discursos polarizados frequentemente deslocam a atenção dos problemas econômicos para conflitos ideológicos, religiosos e comportamentais. Nesse ambiente, trabalhadores que compartilham dificuldades semelhantes podem passar a se enxergar como adversários, em vez de reconhecer interesses sociais comuns.

Outro aspecto é a atuação de influenciadores digitais e grupos políticos que apresentam o sucesso financeiro exclusivamente como resultado do esforço individual, minimizando desigualdades estruturais e dificuldades de acesso às oportunidades. Essa narrativa pode enfraquecer a percepção sobre a importância dos direitos trabalhistas e das políticas públicas. Por outro lado, as mesmas plataformas também permitem a organização de movimentos sociais e a divulgação de informações que fortalecem a consciência coletiva da população.

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O eleitor que vota com o coração

No Brasil, parte do eleitorado vota mais com o coração do que com a consciência de classe. A paixão por lideranças políticas, a identificação religiosa, o carisma dos candidatos e as disputas ideológicas podem pesar mais que a análise das propostas econômicas e sociais. Quando a fidelidade a um político se sobrepõe à avaliação de suas decisões, o eleitor corre o risco de defender medidas sem perceber seus efeitos sobre a própria renda, os direitos trabalhistas e os serviços públicos dos quais depende. O voto emocional não é necessariamente um voto sem reflexão, mas a identificação afetiva pode dificultar o reconhecimento dos interesses coletivos de sua classe social.

Programas sociais e combate à fome

Nesse contexto, os programas sociais são fundamentais. Bolsa Família, BPC e outras políticas públicas representam proteção para milhões de brasileiros e precisam estar associados à geração de emprego, moradia e oportunidades para que o indivíduo deixe de se sustentar às custas da União.

O Brasil saiu duas vezes do Mapa da Fome da ONU: em 2014, durante o governo Dilma Rousseff, e em 2025, no terceiro governo Lula, após ter retornado à classificação no governo Bolsonaro. São resultados que evidenciam a importância de políticas de combate à pobreza, embora a insegurança alimentar ainda não tenha sido eliminada no Brasil.

A consciência de classe não exige fidelidade à direita ou à esquerda. Exige compreender quem se beneficia das decisões políticas e quais consequências elas produzem para a maioria da população.

A democracia se fortalece quando o eleitor conhece seus direitos, questiona interesses econômicos e avalia propostas pelos resultados concretos, não apenas pelos discursos ou paixão político-ideológica.

Banalização da mentira e da corrupção 

A banalização da mentira e da corrupção na política brasileira representa uma ameaça à democracia e à confiança da população nas instituições. Quando políticos envolvidos em escândalos continuam sendo tratados como heróis e informações falsas passam a ser aceitas como verdades, a ética perde espaço para o fanatismo e os interesses particulares do cidadão.

O mais preocupante é quando parte da sociedade deixa de condenar a corrupção e passa a justificá-la conforme o partido ou o político envolvido. Nesse cenário, a mentira deixa de causar indignação, a corrupção passa a ser tolerada e a honestidade perde seu valor no debate público. No final, como diz o ditado popular: “a corda sempre arrebenta do lado mais fraco”. (Pedro Souza)

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