Faltando pouco menos de um ano para o fim do mandato, a gestão de Ricardo Gluck Paul na Federação Paraense de Futebol (FPF) vive um momento de tensão interna. Pelo menos é o que indicam as recentes movimentações nos bastidores da entidade. Desde que o dirigente passou a acumular os cargos de presidente da FPF e vice-presidente da CBF, uma série de conflitos foi registrada, tendo como figura central Reginaldo Souza, um dos vice-presidentes da federação.
Entre os episódios relatados estão denúncias de suposta falsificação de assinatura, busca não autorizada por procurações de representantes de ligas do interior e tentativa de impugnação da prestação de contas da entidade pela Assembleia Geral. O capítulo mais recente foi o envio de um pedido formal de renúncia de Gluck Paul, feito por Reginaldo ao Conselho de Ética da CBF.
Diante das contestações à sua permanência no cargo, o Núcleo de Esportes de O Liberal procurou Ricardo Gluck Paul, que aceitou comentar o caso. Em uma conversa de mais de uma hora, o dirigente apresentou sua versão dos acontecimentos em ordem cronológica. Ao final da entrevista, negou a possibilidade de deixar o comando da entidade. “Não há possibilidade de renúncia”, declarou.

Saída e presidência interina de Reginaldo Souza
“Saí para o Rio de Janeiro e, em homenagem a ele, repassei a presidência em exercício. Na época, havia duas questões importantes para resolver na minha ausência. A primeira era a reta final de uma negociação com a Alepa, que tratava da transmissão da Série A2 e A3 do Parazão, garantindo recursos para os clubes. A segunda missão foi comandar a assembleia geral de prestação de contas”, explicou Gluck Paul.
Pedido de procurações e alegações de “movimentos estranhos”
Luiz Omar Pinheiro, ex-presidente do Paysandu (Marcelo Seabra – Arquivo O Liberal)O dirigente afirmou que, logo após o início da presidência interina de Reginaldo Souza, passaram a ocorrer situações que classificou como “movimentos estranhos” na rotina da FPF. O primeiro deles teria sido o relato de que filiados estavam sendo procurados para assinar procurações que permitiriam à presidência interina representá-los na assembleia de prestação de contas. Segundo Gluck Paul, esse procedimento não havia sido combinado previamente e não era comum na entidade.
Na mesma semana, uma série de críticas à gestão da FPF passou a circular nas redes sociais, feitas por Luiz Omar Pinheiro, ex-presidente do Paysandu e sócio do Santa Rosa, clube da primeira divisão do Campeonato Paraense.
“Percebi uma ligação entre os episódios, porque começou uma onda de fake news. O Luiz Omar falava de fatos distorcidos, atribuía credibilidade a eles e divulgava isso em massa. Ele incentivava que os clubes fossem à assembleia para barrar a aprovação das contas”, afirmou Ricardo.
Alteração da data da assembleia e publicação do edital
De acordo com Gluck Paul, às vésperas da assembleia, o setor contábil da FPF identificou incompatibilidades em parte da documentação — cerca de 6 mil páginas que seriam analisadas. Diante disso, foi solicitada uma nova publicação do edital de convocação. A medida, segundo ele, foi autorizada formalmente por Reginaldo Souza e registrada conforme determina o estatuto da entidade.
“Nós chamamos o Reginaldo, e ele remarcou a assembleia conforme o estatuto, que exige publicaçãodo edital em três jornais de grande circulação. Ele assinou um documento autorizando a nova convocação. Além disso, por praxe, o edital foi disponibilizado no site da FPF, com assinatura digitalizada, como forma de reforçar a transparência”, afirmou.
Ricardo ressaltou que apenas o edital publicado nos jornais e registrado na federação tem valor legal. “O site serve apenas como instrumento adicional de divulgação”, disse.
Problemas com assinatura
A assembleia foi realizada conforme a nova convocação. Gluck Paul retornou a Belém e presidiu a sessão, que, segundo ele, aprovou as contas da gestão com ampla maioria. Apenas o Santa Rosa votou contra.
“A assembleia transcorreu normalmente. Mas, já no encerramento, o representante do Santa Rosa perguntou ao Reginaldo se ele reconhecia a assinatura publicada no portal. Ele disse que não. No dia seguinte, foi à delegacia registrar uma denúncia de falsificação de assinatura. É importante esclarecer que se trata de um documento digital, com os registros oficiais em conformidade com o estatuto”, explicou.
Situação política e permanência
Questionado sobre a possibilidade de renúncia ou afastamento, Gluck Paul afirmou que continua com respaldo interno para seguir à frente da entidade. “Temos o apoio dos filiados. Nosso grupo está unido, e é um grupo grande”, declarou.
Segundo o presidente, Reginaldo Souza já não fazia parte da composição planejada para a próxima eleição, prevista para o ano que vem. “Ele já não viria como vice em uma futura chapa. Lamentavelmente, pode ter entendido essa conjuntura como uma oportunidade para assumir o cargo e se lançou nesse processo. Essa teoria que eles criaram é uma peça de ficção. É impressionante a capacidade criativa de interpretação distorcida do que se usa como argumento para contextualizar uma fantasia”, disse.
Gluck Paul também destacou que a FPF vive, segundo ele, um momento de visibilidade nacional. “Tivemos destaque nos últimos três anos, e agora isso se ampliou. O presidente da FPF é nortista, está na vice-presidência da CBF, e estamos anunciando projetos importantes, como avanços no futebol feminino, melhorias na arbitragem e investimentos em infraestrutura.”
O outro lado
A reportagem de O Liberal procurou a defesa de Reginaldo Souza, que informou que se pronunciará oficialmente nos próximos dias.
Luiz Omar Pinheiro, por sua vez, voltou a se manifestar nas redes sociais. Ele afirmou que Gluck Paul “já alcançou seu objetivo de se tornar vice da CBF” e que a permanência no comando da FPF estaria prejudicando o futebol paraense.
Pinheiro também mencionou a eliminação do Águia de Marabá na Série D do Campeonato Brasileiro como reflexo da atual gestão. “Nesse fim de semana já tivemos o Águia eliminado na Série D. Será que vamos ficar mais um ano sem clubes paraenses subindo para a Série C? Ainda bem que a Tuna se classificou. Vamos ajudar a Tuna a ver se ela consegue furar essa bolha para que o futebol paraense cresça”, disse. (Com O Liberal)


