A inteligência artificial (IA) vem transformando a forma como pessoas trabalham, estudam e se comunicam. Ao mesmo tempo, o avanço dessas ferramentas também amplia desafios relacionados à privacidade e à segurança digital.
Especialistas alertam que sistemas capazes de analisar enormes volumes de informações em poucos segundos podem ser usados tanto para fins legítimos quanto por criminosos interessados em localizar dados sensíveis.
Além disso, identificar vulnerabilidades e até reconstruir detalhes da vida de uma pessoa a partir de pequenos fragmentos de informação espalhados pela internet.
Segundo pesquisadores da área de segurança cibernética, o maior risco está justamente na capacidade da IA de conectar registros aparentemente sem relação entre si.
Compras, localização, publicações em redes sociais, cadastros antigos e dados obtidos em vazamentos podem ser reunidos para criar um retrato detalhado da rotina de alguém.
Casos extraconjugais podem ser descobertos
Ferramentas baseadas em modelos de linguagem, como os grandes modelos de IA generativa, conseguem analisar grandes bases de dados em poucos instantes e encontrar padrões que passariam despercebidos em uma investigação manual.
Na prática, isso significa que informações como pagamentos com cartão, registros de localização, mensagens apagadas e atividades em dispositivos conectados podem ser reunidas para indicar comportamentos que uma pessoa tentava manter em sigilo.
A especialista em tecnologia Kim Komando, em entrevista ao Daily Mail, resume esse cenário com um alerta: “Se existe em formato digital, trate como se pudesse acabar em um outdoor”.
Ela também destaca que esconder completamente rastros digitais se tornou uma tarefa praticamente impossível. “Você precisaria da disciplina de um espião e do estilo de vida de um eremita. As pessoas reais não têm nenhum dos dois”.
Esse tipo de tecnologia também aumenta o potencial de chantagem utilizando informações obtidas em vazamentos antigos.
Um exemplo citado por especialistas é o ataque sofrido em 2015 pela plataforma Ashley Madison, quando dados de cerca de 37 milhões de usuários foram expostos.
Hoje, ferramentas de IA conseguem localizar e relacionar essas informações em poucos segundos.
“Casamentos terminaram. Carreiras terminaram”, afirmou Kim Komando.
Contas anônimas podem ser identificadas
Outra preocupação envolve os perfis criados para preservar o anonimato em redes sociais.
Pesquisas recentes mostram que agentes de inteligência artificial conseguem comparar informações publicadas em diferentes plataformas e encontrar indícios suficientes para associar contas anônimas aos seus verdadeiros donos.
Durante testes realizados pelos pesquisadores, bastaram detalhes aparentemente simples, como mencionar um cachorro ou o parque onde ele costuma passear, para que a IA localizasse a identidade da pessoa com elevado grau de confiança.
O pesquisador Simon Lermen explica que essas ferramentas passaram a atuar de maneira semelhante à de um investigador.
“Agentes de IA agora podem navegar na web como humanos e ter um desempenho semelhante ao de um investigador particular, elaborando um perfil com base nas redes sociais e em tudo o que pode ser encontrado online”.
Segundo ele, a tecnologia também pode cruzar essas informações com bancos de dados obtidos em vazamentos anteriores, ampliando ainda mais a capacidade de identificação.
Dispositivos inteligentes ampliam riscos
Os especialistas também chamam atenção para a segurança de aparelhos conectados à internet, conhecidos como dispositivos inteligentes.
Câmeras, televisores, geladeiras, aspiradores robôs, impressoras e sistemas de monitoramento costumam armazenar informações sobre seus usuários e, em alguns casos, apresentam níveis de proteção inferiores aos encontrados em computadores e celulares.
Para Konstantin Levinzon, cofundador da Planet VPN, isso torna esses equipamentos um alvo atrativo para criminosos.
“Dispositivos conectados em casa geralmente têm segurança mais frágil do que nossos smartphones ou laptops, tornando-os um alvo mais lucrativo para cibercriminosos”.
Ele acrescenta que uma invasão a um único equipamento pode abrir caminho para toda a rede doméstica.
“Sua TV, uma câmera ou impressora podem abrir as portas para cibercriminosos invadirem sua rede e, uma vez dentro, é difícil detê-los”.
Além da possibilidade de invasão, esses aparelhos costumam coletar uma grande quantidade de informações sobre hábitos, horários e rotinas dos moradores.
Registros médicos também estão entre os alvos
Informações de saúde aparecem entre os dados mais valiosos para grupos criminosos. Hospitais, clínicas e operadoras de saúde armazenam registros extremamente sensíveis, que podem ser usados em tentativas de extorsão ou vendidos ilegalmente.
O pesquisador Simon Lermen observa que essas instituições normalmente contam com sistemas robustos de proteção, mas isso não elimina completamente o risco de ataques.
Ele lembra ainda que ferramentas de inteligência artificial estão sendo usadas para automatizar golpes sofisticados.
“Recentemente, vimos um incidente em que Claude Mythos tentou inserir malware em um software”.
Segundo o pesquisador, a IA identificou quem eram os desenvolvedores responsáveis pelo programa e passou a criar mensagens altamente personalizadas para tentar enganá-los.
“Para isso, a IA, sem ser solicitada, pesquisou os humanos que programavam esse software e, em seguida, tentou realizar um ataque de spear phishing contra eles, enviando uma mensagem personalizada com uma carga útil perigosa”.
Ele completa: “O spear phishing é um tipo de engenharia social em que a IA pode auxiliar ou executar de forma autônoma”.
Ainda de acordo com Lermen, mesmo quando os dados já foram vazados anteriormente, a inteligência artificial pode facilitar a localização dessas informações.
“Parte do perigo da IA pode vir simplesmente da busca por esse tipo de informação na internet”.
Conversas privadas também podem ser expostas
Nem sempre o vazamento de informações acontece por causa da ação direta de hackers. Falhas técnicas em plataformas de inteligência artificial também podem acabar tornando públicas conversas que deveriam permanecer privadas.
Recentemente, usuários do chatbot Claude descobriram que links compartilhados de conversas estavam sendo indexados por mecanismos de busca devido a um erro técnico.
Em alguns casos, foram encontradas informações financeiras, dados pessoais e conteúdos extremamente particulares.
Situação semelhante ocorreu em 2023 com o ChatGPT. Na ocasião, uma falha permitiu que um pequeno grupo de usuários visualizasse títulos de conversas pertencentes a outras pessoas e algumas informações relacionadas às contas, incluindo dados de pagamento.
Especialistas reforçam que, embora empresas de tecnologia invistam constantemente em mecanismos de segurança, nenhuma plataforma está totalmente livre de falhas. (Com Diário do Pará)


