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Terror sem fim: as consequências dos ataques de 11 de setembro

Vinte anos depois, os atentados cometidos em 11 de setembro continuam a desafiar o protagonismo dos EUA e a impor uma nova ordem mundial
Foto: Reprodução
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Distante da ingênua ideia do “fim da história”, anunciada pelo historiador Francis Fukuyama, em referência à isolada liderança global que os Estados Unidos teriam alcançado após a queda do Muro de Berlim, a dissolução da União Soviética e o fim da Guerra Fria, um planeta perplexo assistia, há 20 anos, ao esfacelamento do mito da invulnerabilidade americana. Em cenas trágicas, veiculadas ao mundo em tempo real, o maior símbolo financeiro da potência mundial era destruído, e o militar, alvejado.

Se às 8h46 de 11 de setembro de 2001, quando o voo 11 da American Airlines colide com a Torre Norte do World Trade Center havia dúvidas se seria um acidente, 17 minutos depois, quando o segundo avião atinge a Torre Sul, essa hipótese era descartada. Às 9h37, o terceiro voo desviado que parte do aeroporto internacional de Dulles se lança contra o Pentágono. E às 10h03, o voo 93 da United Airlines cai em Shanksville, na Pensilvânia. As certezas, agora, prevaleciam: era um atentado de proporções jamais vistas.

“O 11 de Setembro subverte de forma violenta um conjunto de expectativas da década de 90 em relação à liderança inequívoca dos Estados Unidos na geopolítica internacional. A partir dali, fica clara a percepção de que o país era vulnerável; e que mesmo aquele com o maior exército, com o maior investimento militar, com a maior economia, a maior capacidade científica e acadêmica instalada, estava exposto à ação de grupos rudimentares, sem grande acúmulo de recursos, que, mesmo assim, com inteligência, estratégia, atacou o coração financeiro e militar dos Estados Unidos”, considera o professor Dawisson Belém Lopes, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), diretor-adjunto de Relações Internacionais da UFMG.

Guerra Fria fora, entra em cena a Guerra ao Terror. Sob a perspectiva geopolítica, o 11 de Setembro gesta um novo antagonista aos Estados Unidos: a guerra cultural, civilizacional, travestida de combate ao terrorismo, ocupa o superado cenário internacional da Guerra Fria, que reduziu o mundo ao confronto bipolar entre americanos e russos – sustentado pelo embate entre dois modelos econômicos e sistemas políticos, o liberalismo econômico e poder do livre mercado versus o socialismo e o planejamento estatal, afirma Dawisson Belém Lopes. Um novo antagonista emerge para os EUA.

“Não somente pelas razões necessárias de combatê-lo, mas como instrumento de política externa”, avalia o professor de Relações Internacionais Danny Zahreddine, diretor do Instituto de Ciências Sociais da PUC Minas e líder do grupo de pesquisa Oriente Médio e Magreb (GOMM). “A luta contra o terrorismo passa a ser, para os Estados Unidos, também uma política de inserção internacional e uma política de intervenção”, pontua Danny Zahreddine. Acrescenta Dawisson Belém Lopes: “A justificativa para os grandes choques dali em diante é o enfrentamento entre uma visão de mundo moderna e uma visão pré-moderna, de reivindicação de algumas tradições e de um certo conservadorismo, até de um arcaísmo que era simbolizado pela Al-Qaeda”.

Em nome da “guerra ao terror”, os Estados Unidos invadem o Afeganistão, um dos países mais pobres do mundo, derrubam o Talibã e dão seguimento ao conflito – em um país afundado em guerras, à época, há mais de duas décadas – que se estenderiam, com a nova invasão, por outros 20 anos. Mas há outros desdobramentos diretamente associados a 11 de Setembro. “O combate ao terrorismo foi utilizado para ações em vários países, o principal deles o Iraque. Em 2003, os Estados Unidos invadem o Iraque, caçam Saddam Hussein, matam-no, e quem ganha força? Os iranianos.

Mais de 60% da população iraquiana é xiita. Saddam Hussein, que representava a minoria sunita de um quarto da população, segurava a ação dos radicais xiitas e sunitas”, explica Danny Zahreddine. Ao alijar sunitas do poder no Iraque, por um lado, cresce a influência do Irã sobre o vizinho a partir do maior contato entre as comunidades xiitas dos dois países; por outro lado, com o estímulo da Al-Qaeda sobre o ressentimento sunita, nasce o Estado Islâmico. “Esse novo ator constitui-se dentro da perspectiva jihadista mais radical, como um novo e importante foco de instabilidade para a região”, avalia Danny Zahreddine.

Em poucos anos, o Estado Islâmico – que em princípio se chamava Al-Qaeda do Iraque – se fortalece, chega a controlar dois terços do território iraquiano e igual proporção do território sírio, explica Danny Zahreddine. “Onde há enfraquecimento do poder estatal, o Estado Islâmico entra. Por isso, a Primavera Árabe, que a partir de 2010, da Tunísia, se alastra pela Argélia, Líbia, Marrocos, chega à Síria em 2011, onde vai resultar numa década perdida em guerra, catástrofe humanitária, movimentos migratórios forçados, que também carreiam instabilidade ao vizinho Líbano”, avalia o especialista em Oriente Médio e Magreb.

O caos da região, que também se espalha pelo Sudão e Iêmen, é o retrato da desolação. Danny Zahreddine lembra que, na Síria, se em princípio a intenção dos Estados Unidos era derrubar Bashar Hafez al-Assad – o que promove o alinhamento da Rússia ao campo oposto, em apoio ao governo sírio –, quando avalia o fortalecimento do Estado Islâmico muda o foco para o combate ao grupo radical. “Nesse momento, os Estados Unidos também estão no Iraque, junto aos curdos, no combate ao Estado Islâmico; assim como também as milícias xiitas, com o apoio iraniano, atuam no Iraque com o mesmo propósito”, afirma.

A jornalista Simone Duarte, mestre em relações internacionais e autora de “O vento mudou de direção: o Onze de Setembro que o mundo não viu” (Editora Fósforo), assim resume a guerra americana contra o Afeganistão, apresentada ao mundo nas dramáticas imagens da retirada das tropas de Cabul: “Os Estados Unidos levaram 20 anos, US$ 1 trilhão e quatro presidentes para substituir o Talibã pelo T00alibã. Começou uma guerra desnecessária, uma ocupação estrangeira num país de cultura tribal, que tem a tradição de não ser subjugado por força estrangeira – derrotou o Império Britânico três vezes, derrotou o império soviético numa guerra que se tornou palco da Guerra Fria, em que os mujahedins, árabes que vinham de outros países, foram treinados e financiados pela CIA”, sustenta

“O Afeganistão está com 43 anos seguidos de guerra, os últimos 20 anos com ocupação estrangeira liderada pelos Estados Unidos, e na verdade o talibã nunca deixou de existir. Estava dentro há muito tempo, inclusive com pleno controle de diversas regiões do país. A maior parte dos afegãos se sente enganada, porque de todo o trilhão de investimento, esse dinheiro chegou muito pouco para a maior parte do país. Houve muita corrupção”, conclui ela. (Com Estado de Minas)

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