As eleições de 2026 apresentam uma mudança expressiva no cenário político do Pará: o Estado registra apenas 713 candidaturas, o menor número verificado em uma eleição geral paraense desde 2006. Na comparação com 2022, quando 1.043 candidatos participaram da disputa, são 330 nomes a menos, uma redução de 31,64%.
Os dados foram extraídos do DivulgaCandContas, sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Até o levantamento, somente duas das 713 candidaturas haviam sido julgadas pela Justiça Eleitoral, portanto a situação dos registros ainda pode sofrer alterações durante a análise dos pedidos.
A série histórica dimensiona a queda. Em 2006, o Pará teve 580 candidatos. O número subiu para 852 em 2010 e chegou a 1.046 em 2014. Em 2018, caiu para 899, voltou a alcançar 1.043 em 2022 e agora recuou para 713.
Reforma eleitoral de 2017 e seus impactos
Para o cientista político André Buna, a redução não é um fenômeno isolado. Ela é resultado de mudanças acumuladas no sistema eleitoral e partidário brasileiro, especialmente desde a reforma eleitoral aprovada em 2017.
Buna explica que as alterações promovidas a partir de 2017 modificaram a organização dos partidos e criaram mecanismos cujos efeitos se tornaram mais evidentes ao longo das eleições seguintes.
“A gente já vem discutindo essa possibilidade de redução no número de candidaturas desde a reforma que tivemos em 2017”, afirma. Segundo ele, no Pará já foi possível perceber uma diminuição entre 2014 e 2018, embora nacionalmente o movimento não tenha ocorrido imediatamente.
Um dos fatores apontados é a cláusula de desempenho, que estabelece patamares eleitorais mínimos para que os partidos tenham acesso a recursos e estrutura parlamentar. As exigências são progressivas e estimulam uma reorganização das legendas, sobretudo daquelas com menor expressão eleitoral.
A tendência não é exclusiva do Pará. Nacionalmente, as eleições de 2026 também apresentam forte redução de candidaturas em relação a 2022, movimento associado, entre outros fatores, à cláusula de desempenho, às federações e às limitações impostas às chapas proporcionais.
Federações diminuem espaço para candidatos
Outro elemento central é a criação das federações partidárias e o fim das coligações nas eleições proporcionais. Nas federações, dois ou mais partidos passam a atuar conjuntamente e precisam dividir o limite de candidaturas disponível, em vez de cada legenda apresentar isoladamente uma chapa completa.
“Os partidos federados não podem ter o mesmo número de candidaturas que tinham no período das coligações”, explica André. Para ele, esse mecanismo reduz diretamente a quantidade de concorrentes porque legendas que anteriormente poderiam lançar suas próprias listas agora precisam compartilhar as vagas disponíveis.
O cientista político avalia que as federações também funcionam como instrumento de sobrevivência para partidos menores diante das novas exigências eleitorais e financeiras. Ao mesmo tempo, podem representar uma etapa anterior a processos de incorporação ou fusão entre legendas.
Mais dinheiro para menos candidatos
Buna aponta ainda um paradoxo: enquanto o Fundo Eleitoral aumentou, os recursos passaram a ser direcionados de maneira mais concentrada para candidaturas consideradas competitivas.
“Por mais que tenhamos um volume cada vez maior de recursos disponíveis para a competição eleitoral, existe uma maior concentração desses recursos nas mãos de algumas lideranças partidárias”, analisa.
Segundo o cientista, os partidos tendem a priorizar candidatos com maior possibilidade de conquistar mandatos, reduzindo o espaço político e financeiro para nomes considerados menos competitivos.
Nesse cenário, a redução das candidaturas resulta da combinação entre estratégia partidária e mudanças institucionais. “Algumas razões são estratégicas, como a distribuição dos recursos destinados aos candidatos, e outras decorrem das mudanças das regras institucionais”, resume Buna.
Redução de partidos e representatividade
Para o cientista político, a tendência é que o enxugamento continue nas próximas eleições, acompanhado pela redução do número de partidos com representação efetiva. O processo pode favorecer maior concentração partidária e facilitar a formação de maiorias políticas, mas apresenta uma contrapartida.
Buna considera que o fenômeno produz um efeito duplo. De um lado, diminui a fragmentação partidária; de outro, pode limitar a diversidade de grupos sociais representados eleitoralmente.
“A gente deseja, de fato, uma redução do número de partidos. Contudo, quanto maior o número de competidores, maior pode ser a variação da representação dentro de um sistema democrático”, afirma.
Na avaliação do cientista político, o resultado é uma espécie de equilíbrio delicado: o sistema reduz a pulverização de partidos e candidaturas, mas pode, simultaneamente, restringir as possibilidades de representação de segmentos sociais que encontram maior dificuldade para ocupar espaço nas estruturas partidárias.
Com 713 candidatos, o Pará retorna em 2026 a um patamar que não era observado havia duas décadas. Mais do que uma oscilação eleitoral, Buna avalia que os números refletem os efeitos acumulados das reformas que vêm redesenhando a estrutura da competição política brasileira.
Número de candidaturas registradas no Pará nas últimas eleições gerais:
2006 – 580 candidatos
2010 – 852 candidatos
2014 – 1.046 candidatos
2018 – 899 candidatos
2022 – 1.043 candidatos
2026 – 713 candidatos (até o momento)
(Com Diário do Pará)


