MARABÁ (PA) – A vitória de Daniel Santos (Podemos) na eleição para o Governo do Pará, realizada no dia 4 de outubro de 2026, provocou uma reviravolta no cenário político de Marabá. O resultado das urnas estabeleceu uma nova correlação de forças entre as principais lideranças locais, com reflexos na distribuição de cargos estaduais e nas articulações para a disputa pela Prefeitura de Marabá (PMM), em 2028.
Se a atual governadora Hana Ghassan (MDB) tivesse vencido a eleição, políticos ligados ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e ao Partido dos Trabalhadores (PT) teriam a oportunidade de ampliar o domínio político e administrativo em Marabá. Entretanto, a vitória de Daniel Santos mudou completamente as perspectivas desses grupos, que agora deverão enfrentar uma redução de sua influência sobre a estrutura do governo estadual na Terra de Francisco Coelho.
Embora tenha sido reeleito deputado estadual com a maior votação do Pará, “Chamonzinho” (MDB) e o PT saíram politicamente enfraquecidos. Isso porque órgãos como Usina da Paz, Detran (PA), Sespa, Diretoria Regional de Ensino (DRE), Secretaria Regional de Governo e Carajás Centro de Convenções, entre outros, passarão para o comando de aliados de Daniel Santos e do prefeito de Marabá, Toni Cunha (PL).
Nesse novo cenário, o ex-deputado estadual e ex-prefeito de Marabá, João Salame (Podemos), deverá conquistar uma fatia considerável do “bolo” administrativo estadual. Salame possui representatividade política e capacidade de articulação junto ao grupo do futuro governador Daniel Santos, fatores que poderão garantir sua participação na indicação de nomes para cargos estratégicos do governo na Região de Carajás.
A derrota de Hana Ghassan também enfraqueceu o PT de Marabá, que perdeu a representação do competente deputado estadual Dirceu Ten Caten na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa). O parlamentar decidiu disputar a eleição como candidato a vice-governador na chapa de Hana e, com a derrota, ficou sem mandato parlamentar, reduzindo a presença institucional do partido na política do Pará.
Caso o presidente Lula seja reeleito, MDB e PT ainda poderão preservar espaços políticos em órgãos federais como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e outras instituições da União. Entretanto, esses espaços possuem menor influência direta sobre a estrutura administrativa estadual, que ficará sob o comando do governador eleito.
Outro reflexo da vitória de Daniel Santos poderá ocorrer na Câmara Municipal de Marabá. O MDB deverá perder o comando do Legislativo municipal, abrindo espaço para que a presidência da Casa passe ao grupo político aliado de Toni Cunha. Essa mudança poderá fortalecer a articulação do prefeito junto aos vereadores e ampliar sua influência sobre as decisões políticas da cidade.
O atual presidente da Câmara Municipal de Marabá, vereador Ilker Moraes (PSB), e o deputado estadual “Chamonzinho” despontavam entre os nomes cotados para enfrentar Toni Cunha na eleição municipal de 2028. Entretanto, sem o apoio político e administrativo do Governo do Estado do Pará, a construção de uma candidatura competitiva de oposição poderá se tornar uma tarefa bastante difícil.
Já no campo ideológico da direita, estava “gestando um racha” dentro do grupo político ligado ao prefeito. Nos bastidores, corria à boca pequena que os vereadores Fernando Henrique e Pacheco estariam dispostos a romper com Toni Cunha e enfrentá-lo nas urnas pela disputa da Prefeitura de Marabá (PMM), na eleição de 2028.
Entretanto, a votação dos dois vereadores na eleição para deputado ficou abaixo das expectativas de quem projetava uma candidatura majoritária. Fernando Henrique (PL) recebeu 19.048 votos válidos em Marabá, enquanto Pacheco (PL) conquistou 16.674 votos. Os resultados passaram a ser considerados nas avaliações sobre a capacidade de mobilização eleitoral dessas lideranças. Se ambos saírem candidatos a prefeito na próxima eleição será para “demarcar terreno”.
O atual vice-prefeito João Tatagiba também obteve uma votação modesta, conquistando apenas 3.708 votos. Na minha avaliação, os resultados de Fernando Henrique, Pacheco e Tatagiba não demonstram, neste momento, força eleitoral suficiente para enfrentar Toni Cunha numa disputa direta pela Prefeitura de Marabá, embora uma eleição municipal apresente características diferentes de uma disputa proporcional.
Além disso, a relação política entre Daniel Santos e Toni Cunha representa outro elemento importante para as articulações de 2028. Considerando a proximidade entre ambos, não vejo razões para acreditar que o governador eleito venha a trocar o apoio ao atual prefeito por outra liderança política na disputa pelo comando da cidade polo da Região de Carajás.
Já o empresário e candidato a deputado Rogério “Lustosão”, que também alimentava o sonho de comandar a Prefeitura de Marabá, sofreu um duro revés eleitoral. Com apenas 1.657 votos em todo o Pará, seu projeto político de chegar à Prefeitura de Marabá enfrenta agora um obstáculo considerável, exigindo uma profunda reavaliação de suas estratégias de campanha.
O ex-prefeito Tião Miranda, por sua vez, decidiu não participar da corrida eleitoral de 2026. Ao meu ver, essa ausência provocou uma perda de força política, especialmente diante do surgimento e fortalecimento de novas lideranças. Afinal, na política existe uma expressão bastante conhecida: “rei morto, rei posto”, principalmente quando antigos protagonistas deixam de disputar espaços de poder.
Caso Toni Cunha consiga manter a aprovação de sua administração em torno de 80% nos últimos dois anos de mandato, considero que até mesmo Tião Miranda encontrará enormes dificuldades para derrotá-lo numa eventual disputa pela Prefeitura de Marabá. Evidentemente, essa avaliação depende da manutenção dos atuais indicadores de popularidade e das condições políticas existentes em 2028. Além disso, Tião nunca disse se voltará a disputar o comando da Prefeitura de Marabá.
No dia 24 de agosto de 2026, o Instituto Ampla divulgou uma pesquisa na qual Toni Cunha apareceu com 83,1% de aprovação popular. Na ocasião, muita gente colocou os números em dúvida, questionando se o prefeito realmente desfrutava de tamanho prestígio junto à população marabaense, especialmente diante das críticas enfrentadas por sua administração oriundas de uma ferrenha oposição.
Entretanto, menos de dois meses depois, sua esposa, Lanúzia Cunha, candidata a deputada estadual, conquistou 48.155 votos em Marabá, tornando-se a parlamentar mais votada no município. O desempenho eleitoral de Lanúzia reforçou a percepção sobre a capacidade de mobilização política do grupo liderado por Toni Cunha, embora aprovação administrativa e votação proporcional sejam indicadores diferentes.
Para efeito de comparação, o deputado estadual “Chamonzinho” (MDB), apesar de conquistar a maior votação do Pará para a Assembleia Legislativa, recebeu apenas 21.184 votos na “Terra de Francisco Coelho”. Isso significa que Lanúzia Cunha obteve 26.971 votos a mais que o parlamentar em Marabá, uma diferença expressiva no desempenho eleitoral dos dois candidatos.
A somatória desses acontecimentos — a eleição de Daniel Santos, a votação de Lanúzia Cunha, a aprovação da administração municipal e os resultados dos demais candidatos — ajuda a explicar a influência política exercida atualmente por Toni Cunha em Marabá. Esses fatores também terão peso nas articulações partidárias e na formação de alianças para a eleição municipal de 2028.
No cenário nacional, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial poderá acrescentar outro componente às articulações políticas da direita em Marabá. Caso esse resultado se confirme, será possível dizer, no sentido figurado, que Toni Cunha fez “barba, cabelo e bigode” nas eleições de 2026, considerando os resultados políticos associados ao seu grupo.
No entanto, como em política “boi costuma voar”, nenhuma configuração de forças deve ser considerada definitiva. O cenário político pode mudar da noite para o dia, seja por novas alianças, divergências internas, mudanças administrativas ou pela própria avaliação da população sobre o desempenho daqueles que receberam a confiança das urnas.
Afinal, o “namoro” de uma população com os políticos eleitos por ela pode terminar depois de uma simples “pisada de bola”. Por isso, embora os resultados de 2026 tenham alterado as relações de poder em Marabá, os próximos dois anos serão decisivos para compreender quem conseguirá transformar influência política em apoio eleitoral na disputa pela Prefeitura de Marabá, em 2028. (Pedro Souza)

