OPINIÃO – Ditadura é um regime autoritário caracterizado pela concentração do poder, restrição das liberdades individuais, repressão aos opositores e enfraquecimento das instituições democráticas. O Brasil, apesar de seus problemas institucionais, continua sendo uma democracia, com eleições, liberdade de imprensa e mecanismos legais de defesa.
Em abril de 2018, quando o então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi preso, setores da esquerda passaram a denunciar uma suposta “ditadura do Judiciário”. Em novembro de 2025, com a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), parte da direita adotou discurso semelhante. Vale lembrar que as condenações de Lula foram posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Já Bolsonaro, depois do processo transitado em julgado, foi preso em 22 de novembro de 2025.
O mesmo “modus operandi” reapareceu após a derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL) para Lula, em 2026, com a saída do senador do Brasil na terça-feira (27). O episódio, apelidado neste artigo de “fuga das galinhas”, alimentou novamente acusações de perseguição judicial. Entretanto, a classificação jurídica de uma viagem como fuga depende de circunstâncias e provas concretas.
Flávio Bolsonaro carrega um histórico de investigações que começou a ganhar repercussão nacional com o chamado “esquema das rachadinhas”, envolvendo suspeitas de recolhimento de salários de assessores quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. O Ministério Público apresentou acusações de peculato, lavagem de dinheiro, organização criminosa e apropriação indébita. A denúncia, porém, acabou arquivada em 2022, após a invalidação de provas pela Justiça com interferência do pai.
Mais recentemente, o nome do parlamentar apareceu em apurações relacionadas ao advogado Willer Tomaz, envolvendo suspeitas de movimentações financeiras irregulares, lavagem de dinheiro e possíveis vínculos empresariais ocultos. Essas suspeitas precisam ser comprovadas e não equivalem a condenações, mas especula-se que o montante supostamente desviado estaria na casa de R$ 6 bilhões.
O caso “Dark Horse” amplia os questionamentos. A Polícia Federal investiga suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. Segundo as investigações, Flávio negociou com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, aportes de até US$ 24 milhões. Reportagens apontam repasses de aproximadamente US$ 12,3 milhões para a produção, incluindo transferências ao exterior.
Os investigadores também apuram se parte dos recursos foi destinada a despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Há ainda uma investigação separada sobre possíveis desvios de verbas públicas ligados ao financiamento da obra. Flávio nega irregularidades e sustenta que buscou patrocínio privado.
A saída de Flávio para os Estados Unidos, mesmo diante de uma ordem do STF para entregar os passaportes e permanecer no Brasil, torna o episódio politicamente ainda mais grave. Embora não exista mandado de prisão contra o senador, o descumprimento da determinação judicial exige esclarecimentos.
O Brasil não pode aceitar que políticos transformem suspeitas de crimes em discursos de perseguição ideológica. Investigar não significa condenar, mas ninguém está acima da lei. A democracia exige provas, direito de defesa e responsabilização quando houver culpa comprovada.
Afinal, uma coisa é combater abusos do Judiciário; outra, completamente diferente, é chamar de “ditadura” toda investigação que incomoda os poderosos. Nesta hora, uma boa esfregada na cara com óleo de peroba poderia tornar pública as falcatruas existentes no lodaçal do mundo político.
Eu vivi a ditadura militar nos anos 1970 em Marabá no Pará. As regras para o cidadão se comportar na sociedade era emanada pelo regime e fiscalizada pelas Forças Armadas. Os problemas enfrentados por Lula, Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro não tem nada a ver com ditadura. (Pedro Souza)


