A suspensão temporária da aplicação da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan após a ocorrência de dois óbitos e de dezenas de reações adversas graves estão sob investigação. A medida foi adotada de forma preventiva enquanto especialistas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Ministério da Saúde e do próprio Butantan aprofundam a análise dos casos.
Durante coletiva de imprensa, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ressaltou que ainda não existe comprovação científica de que os casos tenham sido provocados pela vacina. Segundo ele, todas as ocorrências permanecem sob investigação para determinar se há relação causal entre o imunizante e os eventos registrados.
Mortes e casos graves em investigação
O principal motivo para a suspensão são três ocorrências consideradas graves registradas após a vacinação. Entre elas, duas resultaram em morte.
Uma das vítimas é uma mulher de 48 anos que apresentou sintomas compatíveis com dengue grave 19 dias após receber o imunizante. Segundo o Ministério da Saúde, ela evoluiu com comprometimento neurológico severo, incluindo meningoencefalite, e não resistiu às complicações.
O segundo óbito ocorreu com um homem de 58 anos. De acordo com as autoridades sanitárias, ele apresentou febre cinco dias após a vacinação e teve rápida evolução para um quadro de dengue grave com choque refratário, vindo a falecer.
Além das mortes, outro caso chamou a atenção das equipes de vigilância. Uma mulher de 39 anos desenvolveu febre, dores musculares e náuseas seis dias após receber a dose. O quadro evoluiu para dengue grave com choque, exigindo internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Após tratamento intensivo, ela recebeu alta hospitalar.
42 casos graves e 3.703 ocorrências
Desde o início da campanha de vacinação, lançada em 2026 com foco inicial nos profissionais de saúde, cerca de 500 mil doses já foram aplicadas em todo o país. No período entre janeiro e 30 de maio, foram notificadas 3.703 ocorrências de eventos inesperados com sintomas semelhantes aos da dengue, correspondendo a 0,7% dos vacinados.
Dentre essas notificações, 42 pacientes apresentaram sinais de alerta, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos. Os casos representam 0,008% do total de imunizados, mas foram classificados como eventos raros e inesperados, já que não haviam sido observados nos estudos clínicos realizados antes da aprovação da vacina nem constam entre as reações descritas na bula.
Enquanto a investigação é conduzida, estados e municípios foram orientados a interromper imediatamente a aplicação do imunizante. O Ministério da Saúde também recomendou que pessoas vacinadas nos últimos 21 dias procurem unidades de saúde para monitoramento e acompanhamento de possíveis sintomas.
A vacina do Butantan é considerada um marco científico por ser a primeira vacina contra a dengue produzida integralmente no Brasil e a primeira do mundo desenvolvida para aplicação em dose única. Os estudos clínicos que embasaram sua aprovação envolveram cerca de 16 mil voluntários e tiveram os resultados publicados na revista científica Nature, apontando eficácia e segurança do imunizante. Agora, os órgãos de saúde buscam esclarecer se os casos graves registrados representam eventos coincidentes ou se possuem alguma relação com a vacinação. (Com Diário do Pará)


