OPINIÃO – A Bíblia Sagrada é uma das obras mais influentes da humanidade e, para bilhões de pessoas, contém a revelação de Deus. Entretanto, quando analisada historicamente, apresenta diferenças narrativas, questões de autoria e tensões morais. O filósofo Baruch Spinoza (1632–1677), no Tratado Teológico-Político, defendeu que as Escrituras deveriam ser examinadas como documentos históricos, considerando quem escreveu os textos, quando foram produzidos e em quais circunstâncias. Para ele, aceitar a importância moral da Bíblia não exigia considerá-la um livro literalmente ditado por Deus.
Uma Bíblia escrita por muitos autores
A Bíblia não foi escrita por uma única pessoa. Trata-se de uma coleção de textos produzidos, transmitidos e editados durante séculos. Spinoza questionou, por exemplo, a tradição segundo a qual Moisés teria escrito integralmente o Pentateuco. Uma dificuldade evidente é que o próprio Deuteronômio relata a morte e o sepultamento de Moisés, indicando pelo menos intervenção posterior no texto.
As diferenças também aparecem no Gênesis. O primeiro capítulo apresenta a criação organizada em seis dias; o segundo narra a origem humana sob outra perspectiva, concentrando-se em Adão, Eva e o Jardim do Éden. Para religiosos, os relatos podem ser complementares. Para a crítica histórica, diferenças de estrutura e sequência podem indicar tradições distintas posteriormente reunidas. Já uma interpretação literalmente científica da criação entra em conflito com conhecimentos modernos sobre a idade do Universo, a formação da Terra e a evolução da vida.
Deus, Noé e o problema da justiça
Outra questão está na própria representação de Deus. Em algumas passagens, ele aparece misericordioso e disposto a perdoar; em outras, pune populações inteiras e determina ou executa destruições. O Dilúvio é um dos exemplos mais controversos: quase toda a humanidade é eliminada, enquanto Noé, sua família e animais são preservados para um recomeço.
O episódio provoca perguntas difíceis. Se Deus é onisciente, já não saberia antecipadamente que sua criação se corromperia? Por que crianças e animais deveriam sofrer as consequências? E como toda a humanidade poderia ser repovoada por uma única família? Como narrativa simbólica sobre julgamento e recomeço, o Dilúvio possui sentido teológico. Como descrição histórica e científica literal, enfrenta sérias dificuldades.
Maria, Jesus e os apóstolos
A concepção virginal de Jesus aparece explicitamente em Mateus e Lucas, mas não é narrada da mesma forma nos demais textos do Novo Testamento. Marcos começa sua narrativa com Jesus adulto, enquanto João apresenta uma interpretação teológica diferente sobre sua origem. Isso não prova que Maria não fosse virgem, mas mostra que a afirmação pertence essencialmente ao campo da fé, não da comprovação histórica.
O mesmo vale para a pergunta central do cristianismo: Jesus Cristo é realmente Filho de Deus? Historicamente, é possível estudar Jesus de Nazaré, sua pregação, seus seguidores e sua crucificação. Demonstrar que possuía natureza divina é outra questão. Para o Cristianismo, Jesus é Filho de Deus; para a investigação histórica, a divindade é uma afirmação teológica que não pode ser comprovada pelos métodos científicos.
Os apóstolos também não aparecem na própria Bíblia como testemunhas infalíveis. Pedro nega Jesus, Judas o trai e Tomé inicialmente duvida da ressurreição. Além disso, os Evangelhos foram escritos décadas depois dos acontecimentos narrados e apresentam diferenças em episódios importantes, inclusive nos relatos sobre a ressurreição. Isso não necessariamente destrói a mensagem religiosa, mas impede tratá-los como quatro reportagens modernas e absolutamente idênticas.
Jesus diante dos romanos
Jesus viveu numa Judeia dominada pelo Império Romano e terminou condenado à crucificação pelo poder romano. A inscrição “Rei dos Judeus”, associada à cruz nos Evangelhos, revela a dimensão política da acusação: qualquer pretensão de realeza poderia representar desafio à autoridade imperial de Roma.
Para Roma, portanto, Jesus não precisava ser reconhecido como Filho de Deus. Ele foi executado como condenado submetido à autoridade romana. Décadas depois, o historiador Tácito também registraria que “Christus” havia sofrido a pena máxima durante o governo de Tibério, sob Pôncio Pilatos. O movimento cristão posteriormente cresceria até se tornar uma das maiores forças religiosas do Império.
Céu, inferno e vida após a morte
A Bíblia também não apresenta, desde o começo, uma descrição única e uniforme do céu, do inferno e da vida após a morte. No Antigo Testamento aparece o Sheol, relacionado ao mundo dos mortos. Em textos posteriores desenvolvem-se ideias de ressurreição, julgamento e vida eterna.
Até conceitos traduzidos popularmente como “inferno” têm origens distintas, como Gehenna e Hades. A conhecida imagem de um lugar subterrâneo governado pelo Diabo, onde demônios torturam eternamente os condenados, é resultado também de séculos de interpretação teológica, arte e literatura.
Outras polêmicas bíblicas
As questões não terminam aí. Mateus e Lucas apresentam genealogias diferentes de Jesus. Há textos que regulamentam a escravidão sem condená-la nos termos morais atuais; passagens sobre submissão feminina; guerras atribuídas à vontade divina; punições coletivas; milagres e acontecimentos sobrenaturais que não podem ser comprovados cientificamente.
Também existem aparentes tensões teológicas. Paulo enfatiza fortemente a fé na discussão sobre justificação, enquanto a Carta de Tiago declara que a “fé sem obras é morta”. As diferentes tradições cristãs desenvolveram interpretações para harmonizar essas passagens, mas elas mostram a diversidade existente dentro do próprio Novo Testamento.
De perseguidos a perseguidores
A história do Cristianismo também contém uma grande ironia. Os primeiros cristãos enfrentaram períodos de perseguição romana. Séculos depois, quando o Cristianismo se aproximou do poder imperial, instituições cristãs também participaram de perseguições contra considerados hereges e de episódios de intolerância religiosa.
Posteriormente, a religião esteve associada a guerras, disputas políticas e processos coloniais. Isso não significa responsabilizar Jesus por tudo o que foi realizado em seu nome. Pelo contrário: existe evidente distância entre ensinamentos como amar o próximo e determinados atos cometidos posteriormente por instituições cristãs.
Spinoza: fé não elimina a razão
Spinoza rejeitava a imagem de Deus como um ser semelhante a um governante humano sobrenatural que intervém arbitrariamente no Universo. Sua concepção de “Deus ou Natureza” (Deus sive Natura) rompeu profundamente com a visão religiosa tradicional e ajudou a transformar o estudo crítico da Bíblia.
As contradições e diferenças bíblicas não obrigam ninguém a abandonar sua religião. O ponto central é separar fé, história e ciência. A Bíblia pode possuir extraordinário valor espiritual e cultural sem precisar funcionar como manual científico ou reportagem histórica moderna.
A contribuição mais provocadora de Spinoza permanece atual: nenhum livro deveria estar acima da investigação racional. Questionar quem escreveu a Bíblia, como seus textos foram modificados e transmitidos, ou se determinadas histórias devem ser interpretadas literalmente não representa necessariamente um ataque à religião.
Para Spinoza, permanece uma pergunta incômoda, mas legítima: se Deus concedeu ao ser humano a razão, por que seria pecado utilizá-la para questionar aquilo que outros seres humanos escreveram em seu nome? (Pedro Souza)


