MARABÁ (PA) – O “disse me disse” em torno da desistência do ex-prefeito Sebastião Miranda Filho, o “Tião Miranda” (PSD), de disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados, em Brasília (DF), chegou ao fim. A retirada do ex-prefeito modifica consideravelmente o tabuleiro político de Marabá na disputa para deputado federal e deixa milhares de eleitores que poderiam votar em “Tião” livres para escolher outro nome.
Na minha avaliação, a saída de “Tião Miranda” da disputa tende a “turbinar”, principalmente, as candidaturas de Ubirajara Sompré, o “Bira” (PSB), e do empresário Rogério Lustosa, o “Lustosão” (Podemos). Evidentemente, eleição não é uma operação matemática e voto não se transfere automaticamente. Entretanto, quando uma liderança eleitoralmente forte deixa uma disputa, abre-se um espaço político que outros candidatos tentarão ocupar a vacância.
No caso de Ubirajara Sompré, existe um campo eleitoral bastante definido. “Bira” possui experiência na política municipal, atuação ligada às pautas indígenas e trânsito em diferentes segmentos da sociedade marabaense. Candidato a deputado federal pelo PSB, ele nasceu em Marabá, no Bairro do Amapá, e chega à eleição tentando transformar sua trajetória política e sua ligação com os povos originários em uma candidatura de alcance em todo o estado do Pará, pois conta com o apoio da governadora Hana Ghassan (MDB) e do ex-governador Helder Barbalho (MDB), este favorito para ocupar uma vaga no Senado Federal em Brasília.
A candidatura de Ubirajara também poderá buscar votos entre a juventude, setores culturais, desportivos, movimentos sociais e parcelas do eleitorado identificadas com posições de centro-esquerda. Outro componente importante é sua identidade indígena e sua articulação com diferentes povos originários. Em uma eleição proporcional, na qual o candidato precisa ultrapassar as fronteiras de seu município de origem, construir votos em diversas regiões do Pará pode fazer diferença.
Do outro lado desse novo cenário aparece Rogério Lustosa, o “Lustosão” (Podemos). Empresário e estreante na disputa eleitoral, ele poderá conquistar parte do eleitorado de centro-direita que poderia acompanhar “Tião Miranda”. Nesse universo, estão segmentos empresariais, comércio, agronegócio, grupos religiosos e eleitores conservadores, além daqueles identificados politicamente com a candidatura de Daniel Santos (Podemos) ao Governo do Pará.
“Lustosão” também nasceu no Bairro do Amapá, em Marabá. Sua candidatura procura apresentar experiência empresarial, planejamento e capacidade administrativa como credenciais para entrar na política. Por ser um neófito nas urnas, entretanto, terá pela frente um desafio comum a todo candidato estreante: transformar conhecimento pessoal, relações empresariais e articulação política em votos.
Uma “estrutura de campanha” eficiente também poderá ser determinante. Não basta ter recursos, apoiadores ou exposição nas redes sociais. Campanha para deputado federal exige coordenação, presença territorial, comunicação, organização de lideranças e uma equipe que realmente “conheça o riscado”. O tamanho da votação de qualquer candidato dependerá da capacidade de ampliar sua presença para além dos grupos que já o conhecem.
É justamente nesse aspecto que a desistência de “Tião Miranda” ganha importância. O ex-prefeito possui uma história eleitoral consolidada em Marabá. A saída de uma liderança desse tamanho deixa um espaço que dificilmente será ocupado por apenas uma candidatura. Os votos poderão se espalhar entre diferentes nomes, partidos e campos ideológicos. Portanto, seria precipitado falar em transferência automática dos votos de Tião para “Bira”, “Lustosão” ou qualquer outro candidato.

Eleitor de Marabá precisa discutir representação
A eleição de 2026 traz novamente para o centro do debate uma questão antiga: a representação política de Marabá na Câmara dos Deputados em Brasília. O último deputado federal eleito com origem e forte base eleitoral na cidade foi Beto Salame, em 2014. Naquela eleição, ele conquistou 93.524 votos no Pará, dos quais 31.190 vieram de Marabá.
Passados 12 anos, Marabá chega à eleição de 2026 diante da possibilidade de voltar a eleger um representante diretamente identificado com o município. Isso deveria provocar uma reflexão séria entre os eleitores, independentemente de posição ideológica, partido político ou preferência pessoal, pois a cidade precisa, e muito, de um representante em nível federal.
Não existe obrigação jurídica de votar em candidato da própria cidade — o eleitor é livre e soberano para escolher qualquer candidatura registrada no Pará. Existe, contudo, um argumento político legítimo em favor da representatividade regional. Uma cidade com a importância econômica, populacional e estratégica de Marabá tem interesse direto em ampliar sua presença em Brasília (DF), onde são discutidos o Orçamento da União, emendas parlamentares e políticas públicas que atingem diretamente os municípios do interior do Brasil.
Os deputados federais participam das grandes decisões nacionais, mas também funcionam como importantes interlocutores dos municípios junto aos ministérios e demais órgãos federais. Saúde, infraestrutura, educação, saneamento básico, rodovias, desenvolvimento regional e investimentos públicos passam, em diferentes graus, pela capacidade de articulação política de uma região através de seu parlamentar.
Por isso, o Portal Debate defende que o eleitor marabaense coloque a representação de Marabá e da Região de Carajás entre os critérios de sua decisão. Isso não significa entregar voto antecipadamente a “Lustosão”, Ubirajara Sompré ou qualquer outro candidato. Significa conhecer os nomes da cidade, analisar suas propostas, trajetória, alianças, capacidade política e condições eleitorais antes de escolher o seu “ungido”.
Em 2026, diferentemente de eleições anteriores, Marabá apresenta candidaturas que procuram construir aquilo que no meio político costuma ser chamado de “perspectiva de poder”: possibilidade real de disputar uma vaga a partir da combinação entre votação própria, desempenho partidário, alianças, estrutura eleitoral e capacidade de conquistar votos fora do município.
A desistência de “Tião Miranda”, portanto, não encerra a disputa política em Marabá. Pelo contrário: ela começa uma nova disputa pelos votos que ficaram órfãos de uma das maiores lideranças eleitorais da história recente do município. “Lustosão”, Ubirajara Sompré e outros candidatos tentarão ocupar esse espaço.
Ao eleitor cabe observar, comparar propostas e decidir. Depois de 12 anos sem eleger um deputado federal diretamente identificado com sua principal base política, Marabá tem motivos de sobra para discutir seriamente quem poderá representar seus interesses em Brasília. A decisão final, como sempre deve ocorrer numa democracia, pertence exclusivamente às urnas no dia 4 de outubro de 2026. (Pedro Souza)


