Bolsonaro completa um ano preso sob risco de voltar ao regime fechado

Levado à domiciliar após viva-voz com Flávio no Rio há um ano, ex-presidente acumula série de violações às cautelares nos últimos meses

Em domiciliar desde que deixou a Papudinha há cerca de quatro meses, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) completa um ano sem liberdade nesta terça-feira (4/8). Durante o período, Bolsonaro, preso pela primeira vez em 4 de agosto de 2025 por descumprir uma das cautelares então em vigor, acumula uma série de violações e está sob risco de retornar ao regime fechado.

Leia também: PL volta a reproduzir voz de Bolsonaro em convenção em Santa Catarina

Bolsonaro ficou sob custódia há um ano por participar de um ato em Copacabana, Rio de Janeiro (RJ), através de uma ligação em viva-voz com o filho e senador, Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O ex-presidente agora vê a domiciliar, autorizada em caráter humanitário para cumprir a pena de 27 anos e 3 meses por golpe de Estado, ameaçada pela terceira vez.

A nova ameaça à domiciliar também foi protagonizada por Flávio. O candidato à Presidência da República exibiu um vídeo do pai, manipulado por inteligência artificial (IA), durante a convenção nacional do PL em São Paulo (SP), no último dia 25, dias após Moraes proibir Bolsonaro de divulgar manifestos político-eleitorais, independentemente do meio, até o fim da eleição.

O ministro apontou que o vídeo de IA seria uma “nova e grave transgressão” caso o ex-presidente tivesse autorizado o filho a usar sua imagem e sua voz, mas a defesa negou que Bolsonaro soubesse e lembrou que ele também está proibido de receber visitas político-eleitorais. A conclusão está pendente de um parecer do procurador-geral da República, Paulo Gonet.

O ex-presidente está proibido de receber visitas político-eleitorais porque violou as cautelares ao escrever uma carta aos eleitores para Flávio divulgá-la no Instagram. Lá, mesmo impedido de acessar redes sociais direta ou indiretamente, Bolsonaro designou o filho como seu “porta-voz” para tentar arbitrar o rompimento entre o senador e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL).

Moraes manteve o ex-presidente preso em domiciliar após Gonet indicar que a revogação seria desproporcional, mas lhe proibiu de se envolver na eleição. O ministro ressaltou que uma nova violação levaria à reavaliação do benefício humanitário “com a adoção de medidas mais gravosas, inclusive a reversão da prisão domiciliar humanitária em regime fechado”.

Bolsonaro já havia colocado a domiciliar em xeque às vésperas de esgotar o prazo inicial de 90 dias do regime. A dez dias da data-limite, a Polícia Civil do Distrito Federal (DF) apreendeu uma pistola Glock 9mm registrada em nome do ex-presidente com um militar do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República destacado para sua segurança pessoal.

Após o militar relatar que havia levado a pistola para reparos, Moraes intimou Bolsonaro a explicar por que queria consertá-la às vésperas do fim do prazo da domiciliar. O ministro observou que a posse da arma de fogo poderia caracterizar uma falta grave do ex-presidente, passível de “regressão no regime de cumprimento de pena, inclusive com a cessação da prisão domiciliar”.

A Polícia Civil abonou Bolsonaro de culpa, Gonet minimizou a apreensão da pistola e Moraes prorrogou a domiciliar por tempo indeterminado. O ministro alertou, mais uma vez, que “o descumprimento das regras da prisão domiciliar humanitária temporária ou de qualquer uma das medidas cautelares implicará na sua revogação e ao retorno imediato ao regime fechado”.

Logo no início da domiciliar, dois dias após ir para casa, Bolsonaro precisou explicar por que o filho e ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sugeriu, com o celular em mãos, que estaria gravando um vídeo para o pai ao participar da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), nos Estados Unidos.

À época, até mesmo Michelle se explicou, negando que o enteado tenha lhe enviado qualquer vídeo para mostrar a Bolsonaro. “Ainda que algo tivesse sido recebido, de forma alguma o material seria mostrado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, uma vez que ele está proibido, por força de determinação judicial, de ter acesso a aparelhos celulares”, ressaltou.

As violações às cautelares já levaram Moraes a revogar a prisão domiciliar do ex-presidente. Ainda antes de a condenação a 27 anos e 3 meses esgotar todos os recursos, Bolsonaro foi preso preventivamente após violar sua tornozeleira eletrônica com um ferro de solda. Ele atribuiu a conduta a uma “certa paranóia (…)”, provocada pela interação de diferentes remédios de uso controlado.

Para o ministro, a solda da tornozeleira indicou a intenção de fuga de Bolsonaro, pois, no dia seguinte, haveria uma mobilização próximo à sua casa. Moraes apontou que “a democracia brasileira atingiu a maturidade suficiente para afastar e responsabilizar patéticas iniciativas ilegais em defesa da organização criminosa responsável por tentativa de golpe de Estado no Brasil”. (Com O Tempo)

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