Viagra pode conter metástase, revela estudo do Instituto Weizmann

Pesquisa publicada na Cancer Research mostra que o sildenafil bloqueia colesterol em células tumorais, dificultando a disseminação do câncer

Um estudo publicado no dia 14 de julho de 2026 na revista Cancer Research, periódico científico de alto impacto da American Association for Cancer Research (AACR), acendeu uma nova esperança no tratamento oncológico. Pesquisadores do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, demonstraram que o sildenafil — princípio ativo do Viagra, medicamento amplamente utilizado para disfunção erétil — pode conter a progressão da metástase em tumores sólidos por meio de um mecanismo biológico até então desconhecido.

Liderada pelo Dr. Yarden Ariav e pela professora Ayelet Erez, a investigação identificou que o fármaco atua sobre a enzima PDE5a nas células tumorais. Ao inibir essa enzima, o sildenafil eleva os níveis de uma molécula chamada cGMP, que se liga ao transportador de colesterol NPC1 nos lisossomos — organelas responsáveis pela reciclagem de nutrientes dentro da célula. Esse processo provoca o acúmulo de gordura no interior das organelas, privando a célula cancerígena de recursos essenciais para a formação de membranas e para a geração de energia mitocondrial.

Sem o colesterol disponível, as células tumorais perdem a mobilidade necessária para se desprender do tumor original, invadir tecidos vizinhos e se espalhar pelo corpo por meio da corrente sanguínea ou linfática — processo que define a metástase, responsável por aproximadamente 90% das mortes associadas ao câncer.

O efeito antimetastático foi observado em modelos animais de câncer de mama, pulmão e cólon, três dos tipos mais incidentes e letais da doença. Os resultados laboratoriais foram corroborados por uma análise observacional de grande escala: os pesquisadores examinaram registros de saúde de mais de 40 mil pacientes oncológicos e identificaram uma associação entre o uso frequente de sildenafil e uma maior taxa de sobrevida.

Segundo a equipe do Weizmann, os efeitos benéficos foram potencializados quando o medicamento foi combinado com estatinas, fármacos tradicionalmente utilizados para reduzir os níveis de colesterol no sangue.

“Juntos, esses achados identificam o aumento dos níveis de cGMP por meio da inibição da PDE5a como uma estratégia potencial para restringir a metástase e oferecem uma base mecanicista para os efeitos benéficos do sildenafil”, escreveram os pesquisadores no artigo, conforme repercutido pelo site Medical Xpress.

Apesar do entusiasmo gerado pela descoberta — que ganhou repercussão internacional em veículos como Newsweek, Gizmodo e ZME Science —, os próprios autores fazem ressalvas importantes. A pesquisa é, por enquanto, observacional e experimental.

Ensaios clínicos randomizados em humanos são indispensáveis para confirmar a segurança e a eficácia do uso do sildenafil como terapia adjuvante contra o câncer. Não há, neste momento, qualquer recomendação médica para que pacientes oncológicos passem a utilizar o medicamento com essa finalidade.

Um aspecto que torna o estudo particularmente relevante é a estratégia de reposicionamento de drogas. O sildenafil é um medicamento já aprovado por agências regulatórias ao redor do mundo, com perfil de segurança conhecido, efeitos colaterais mapeados e produção em escala industrial. Isso significa que, se os ensaios clínicos futuros confirmarem sua eficácia antimetastática, o caminho regulatório para sua adoção como terapia complementar poderia ser significativamente mais rápido do que o de uma molécula nova — um fator crítico em oncologia, onde o tempo é um recurso escasso.

Vale notar que estudos anteriores já haviam sugerido efeitos ambivalentes do sildenafil no câncer. Uma minirrevisão publicada em junho de 2025 na revista Reproductive and Developmental Medicine apontou que, embora o fármaco apresente potencial anticancerígeno em diversos tipos de tumor, também há evidências que levantam preocupações sobre possível atividade pró-cancerígena em determinados contextos. Essa dualidade reforça a necessidade de investigação clínica rigorosa antes de qualquer aplicação terapêutica generalizada.

O estudo do Instituto Weizmann representa, portanto, um passo promissor, mas não definitivo. A ciência avança por acumulação de evidências, e a descoberta de que uma pílula azul de 50 miligramas pode interferir no metabolismo do colesterol de células tumorais abre uma nova avenida de investigação. Caberá aos próximos anos — e aos próximos ensaios clínicos — transformar essa promessa laboratorial em uma ferramenta real no arsenal contra o câncer.

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