MARABÁ, SUDESTE DO PARÁ – Na noite desta quarta-feira (10), o cansaço típico de quem estuda no período noturno deu lugar à poesia, ao pertencimento e à ancestralidade na Escola Gaspar Vianna Anexo I, que fica na Folha 33, em Marabá, sudeste paraense. Estudantes do 3º ano do Ensino Médio e da EJA (Educação Jovens e Adultos) mergulharam no universo das mulheres amazônidas através da oficina “Mulheres Amazônidas Dissidentes: a poética indígena de Márcia Kambeba”.
A ação faz parte do projeto de extensão Vozes Dissidentes, capitaneado pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), em parceria com a rede pública estadual. Longe de ser apenas uma aula teórica, a iniciativa cruza os muros da universidade para dar vida prática às Leis nº 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatório o ensino da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas.
A professora doutora Edimara Santos, da Faculdade de Estudos da Linguagem (FAEL) – Unifesspa – e mente à frente do projeto, explica que a literatura produzida por essas mulheres é uma ferramenta poderosa de transformação:
“O nosso grande objetivo com as oficinas é propiciar momentos de leitura interpretativa, criativa e literária com essas escritoras contemporâneas, especialmente as amazônidas. Acreditamos que a literatura escrita por mulheres negras e indígenas tem o poder de romper barreiras, questionar discursos que tentam nos calar e, acima de tudo, fortalecer a resistência contra o preconceito e o racismo.”
A atividade, coordenada por Edimara ao lado das professoras Maria Neuza, Ailce Margarida, da educadora popular Rejane César e da bolsista Mikaelly de Souza, foi construída em quatro etapas (sensibilização, antecipação, leitura e interpretação), envolvendo os alunos de forma sensível e profunda.
Identidade
O impacto de debater textos como os de Márcia Kambeba (que criticam estereótipos como o próprio termo colonizador “índio”) foi imediato. Para a estudante Josiane Ferreira, que cursa a 1ª EJA (Educação Jovens e Adultos), a oficina não foi apenas conteúdo para o vestibular, mas um reencontro com a própria história.
“Eu tenho sangue indígena, minha avó e minha mãe são indígenas do povo Manaie. Antes da oficina, eu me considerava ‘desaldeada’ e me via meio de fora. Mas tudo mudou. Agora eu sei que sou indígena, não sou ‘índia’, sou indígena e faço parte do meu povo! Ouvir sobre a Márcia Kambeba, sobre gerações e ancestralidade, somou muito na minha vida. Já mudei meus planos e quero visitar e participar mais da minha aldeia. E claro, agora vou pesquisar muito mais sobre isso, até para a prova do Enem”, comemora Josiane, emocionada.

Uma via de mão dupla
Essa troca rica reflete o verdadeiro papel da extensão universitária: um encontro onde o saber acadêmico e o saber popular se abraçam. Antônia de Jesus, diretora da Escola Gaspar Vianna Anexo I (instituição parceira das ações da universidade), destaca que a presença da Unifesspa oxigena o ambiente escolar.
“Essa parceria transforma nossa comunidade. Ela aproxima nossos estudantes do ensino superior, fazendo com que eles vejam a universidade não como um sonho distante, mas como um futuro real. Além de trazer metodologias inovadoras que estimulam o pensamento crítico, a Unifesspa nos apoia na construção de um ambiente seguro, que valoriza a diversidade e forma cidadãos conscientes”, pontua a diretora.
Em uma noite comum de junho, a literatura amazônica provou que a poesia não serve apenas para ser lida, mas também serve para libertar, identificar e resistir.
“A realização de oficinas sobre literaturas indígenas e negras é uma iniciativa muito positiva para a educação. Acredito que parcerias como essa fortalecem o processo educativo e contribuem para a construção de um currículo mais inclusivo, que respeite a diversidade de sujeitos e culturas. Ao trazer essas discussões para a sala de aula, promovemos o respeito às diferenças, o reconhecimento das identidades e uma educação mais igualitária”, explicou a professora Maria Raimunda Santana Fontes, efetiva da rede pública estadual, lotada na Escola Gaspar Vianna.
O diretor da DRE (Diretoria Regional de Ensino/Marabá) Magno Barros afirma que as escolas estão sempre de portas abertas para receber instituições que contribuam por meio de seus programas de extensão. “Nesse caso em específico, a oficina foi de grande valia. O tema indígena, por exemplo, ainda exige um olhar mais técnico e atualizado. A sociedade está muito distante dessa cultura, de tal forma que, no imaginário coletivo, persiste a figura do “índio” do século XIX: isolado na floresta, com vestimentas rudimentares e alheio à tecnologia dos nossos tempos. Uma visão completamente desassociada da realidade e carregada de preconceito. É justamente por isso, e por tantos outros motivos, que iniciativas como esta oficina são não apenas bem-vindas, mas necessárias”, conclui Magno Barros. (Texto: Emilly Coelho)



