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Suspeito de agredir crianças negras foi condenado por calúnia e citado em máfia

Restaurante Malibu, em Campina Grande (PB), onde duas crianças negras que tentavam vender doces foram agredidas e expulsas Imagem: Flávia Barbosa
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O empresário Luiz Manuel Medeiros Costa, suspeito de agredir e expulsar duas crianças negras de um restaurante em Campina Grande (PB), já foi condenado duas vezes pela Justiça por crimes diferentes e também foi citado em uma denúncia que investigou um grupo que clonava cartões, sendo conhecido como Máfia dos Cartões.

Na tarde de ontem, ele foi preso em flagrante após o fato ocorrido no Restaurante Malibu. Um dos meninos expulsos do restaurante ficou com a orelha esquerda lesionada com a agressão sofrida. Medeiros foi solto após assinar um termo de compromisso e responderá em liberdade. Ele está sendo investigado por lesão corporal.

O empresário já foi condenado por crime contra a honra. Em 2016, uma funcionária do restaurante apresentou um atestado médico, e Medeiros publicou nas redes sociais dizendo que o atestado era falso, alegando que ela não estava doente, pois tinha ido para a festa de São João e não foi trabalhar.

A médica ingressou com ação judicial, e Medeiros foi condenado pelo crime de calúnia em 2018. A defesa do empresário ingressou com embargos e, agora, ele aguarda ser intimado da condenação. O advogado disse que Medeiros admitiu que não deveria ter exposto o atestado, que agora, aguarda a punição devida.

O empresário também foi processado pelo Ministério Público Federal junto com mais 21 pessoas pelo crime de estelionato, em 1998, sobre a ação criminosa de clonagem de cartão de crédito, chamada a Máfia dos Cartões. A denúncia prescreveu no Superior Tribunal de Justiça, em 2016, devido à morosidade em julgar o caso.

“Agora tudo que acontece com preto é crime”, diz advogado

Ontem, o empresário foi preso após o fato ocorrido em seu restaurante. Procurado pela reportagem, a defesa do advogado negou que ele tenha agredido e causado o ferimento em uma das crianças.

Segundo testemunhas, as duas crianças entraram no restaurante para tentar vender doces, e o proprietário teria supostamente expulsado os meninos e um deles teria sofrido agressões físicas. Um vídeo mostra que um dos meninos ficou com a orelha lesionada devido à agressão sofrida. Nas imagens, o menino está chorando e passando a mão na orelha, bastante assustado.

O advogado Afonso Vilar, contratado por Medeiros, afirmou que “agora tudo que acontece com preto, pobre e mulher é crime”. “Não ocorreu nenhuma agressão física. Quando o menino proferiu palavras de baixo calão, imediatamente, ele foi colocado para fora. Passou gente na hora e gerou um tumulto porque agora tudo que acontece com preto, pobre e mulher é crime”, afirmou Vilar.

A defesa do empresário disse que ele vai disponibilizar as imagens das câmeras do restaurante “no momento oportuno para esclarecer o ocorrido”. De acordo com Vilar, o cliente dele contou que os meninos estavam mexendo no bufê do self service, teriam sido repreendidos e um deles teria ameaçado quebrar uma mesa do restaurante.

“Aquela criança sempre passa no restaurante e causa incômodo. Mexe no self service, pede comida. O Luiz [Medeiros] pediu que o menino se retirasse junto com a outra criança, mas ele falou que não tinha medo de nada, que ele deixasse de bocão porque ele iria quebrar uma mesa. Daí, ele (Medeiros) o pegou pelos braços e o botou para fora”, alegou.

Vilar afirmou ainda que soube da lesão da orelha do menino ao ver os vídeos e questionou Medeiros, que negou. “Ele me relatou que somente pegou o menino pelos braços e o colocou para fora do restaurante. Se apareceu essa lesão na criança não foi no restaurante, ela já estava com o machucado”, afirmou o advogado, destacando que o empresário não prestou assistência médica ao menino porque “ele está sendo acusado de um crime que não cometeu”.

Protestos e pedidos de boicote ao restaurante

O restaurante Malibu abriu normalmente no dia de hoje e foi alvo de protestos de duas entidades de movimentos sociais que afirmaram que estão organizando um protesto com boicote ao estabelecimento comercial. A Unidade Popular de Campina Grande afirmou, em nota, que é preciso “boicotar esse e denunciar outros estabelecimentos que agirem assim, e exigir que a Justiça seja feita!”

“É mais um caso de agressão motivada pelo racismo e pela legitimação da violência com os que são pobres nesse país. Precisamos urgentemente denunciar a violência que o racismo impõe. Uma criança tem que ter o direito de ser criança e jamais deveria estar trabalhando, nem passando por uma situação tão humilhante e violenta quanto essa! Isso precisa acabar!”, alertou a entidade, destacando que o “racismo estrutural fica evidente ao observarmos que a maior parte do povo pobre é negro. Nesse caso em especial temos outro agravante, eram crianças submetidas ao trabalho infantil, que é ilegal”.

O grupo Levante Popular da Juventude da Paraíba publicou um vídeo do momento em que pessoas se aglomeram na porta do restaurante aguardando a chegada da Polícia Militar enquanto outras prestam assistência às duas crianças e afirmou que é por imagens como aquelas que as pessoas devem evitar ir ao restaurante.

“Mais um episódio de racismo se configura em Campina Grande. Esse não é o primeiro e nem será o último caso de racismo denunciado na cidade. É revoltante que, em tempos de pandemia, com o aumento do trabalho informal e infantil para que as famílias – em sua maioria, negras – possam garantir o mínimo de sobrevivência (o que o Estado falha em fazer), crianças estejam sendo tratadas dessa forma por homens brancos e ricos”, disse a nota do movimento.

Fonte: UOL

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