MARABÁ (PA) – A manhã da última terça-feira (7), durante audiência pública da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) no plenário da Câmara Municipal de Marabá, foi marcada por um episódio de desentendimento entre o ex-candidato a vereador João Víctor Cavalcante e a promoter de eventos e assessora técnica da Secretaria Municipal de Cultura, Raytha Solaires Rezende — uma das figuras mais representativas da história cultural e do movimento LGBT+ em Marabá.
O caso ocorreu enquanto oradores faziam uso da palavra. Em vídeos que circulam em aplicativos de mensagens, João Víctor aparece dirigindo-se a Raytha de forma desrespeitosa, afirmando: “Eu sou coordenador [da Parada LGBT], e você é quem? Ninguém.” A fala provocou imediata reação de repúdio entre os presentes. Raytha relatou que João estaria perseguindo seu namorado na faculdade dele e nas redes sociais, razão pela qual buscou satisfação do jovem durante a audiência pública.
O episódio, amplamente comentado nas redes sociais, reacendeu discussões sobre respeito e representatividade dentro do próprio movimento LGBT+ local, e trouxe à tona a importância histórica de Raytha Solaires para a cidade. Atuante há várias décadas, ela é reconhecida como uma das precursoras da visibilidade trans em Marabá, tendo aberto caminhos em um período em que o debate sobre diversidade ainda era incipiente.
Raytha é figura central no tradicional Bloco Carnavalesco Gaiola das Loucas, símbolo da cultura popular marabaense. Todos os anos, desfila com fantasias vindas de Belém, levando brilho, cor e alegria às ruas. Mais do que presença festiva, ela consolidou sua trajetória como referência cultural e social, contribuindo para fortalecer a expressão artística e a inclusão da comunidade LGBT+ nas celebrações públicas.
Ao longo de décadas, sua atuação ultrapassou o Carnaval. Raytha se tornou voz ativa na defesa da igualdade e do respeito, ajudando a dar visibilidade a pautas que, por muito tempo, foram silenciadas. Sua presença na Secretaria de Cultura reforça o reconhecimento institucional de sua trajetória e de sua contribuição à identidade cultural da cidade.
O episódio da audiência pública, embora lamentável, evidenciou o contraste entre a intolerância e o legado construído por Raytha. Mais do que uma resposta pessoal, sua postura reafirma o compromisso de quem, há anos, resiste com dignidade e continua sendo símbolo de representatividade, arte e coragem em Marabá. O bloco Gaiola das Loucas, a ONG Atitude LGBT+ e movimentos sociais devem emitir notas em solidariedade a Raytha. (Portal Debate)


