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O Facebook quer se esconder

Mudança de nome faria com que aplicativo de redes sociais se tornasse apenas mais uma marca do conglomerado de Zuckerberg; rebranding também está relacionado à construção do ‘metaverso’
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É o truque mais velho na cartilha do branding — em crise extrema, mude o nome. Pois o Facebook acusou o golpe. Na semana que vem, de acordo com o Verge, a companhia deverá mudar seu nome. As redes que controla continuarão como estão — o Instagram seguirá sendo Instagram, o WhatsApp também, o próprio Face continuará Facebook. A holding, porém, atenderá por outro nome. A especulação nos corredores da sede, em Menlo Park, é que a companhia presidida por Mark Zuckerberg passará a se chamar Horizon. Horizonte, em inglês.

A British Petroleum virou BP, com o apelido Beyond Petroleum. Além do petróleo. A Philip Morris, dona do Marlboro e de muitas outras marcas de cigarro, no período da mudança radical de regulação do tabagismo, quando ficou claro que a indústria fazia de tudo para esconder os males do produto, se tornou Altria Group. Grandes companhias em crise de imagem fazem isso a toda hora. É um livrar-se do passado.

Se a tática é eficaz, bem, isso é outra história. Mas sempre há um argumento para a mudança. A holding do Google passou faz uns anos a se chamar Alphabet. Tinha um bom argumento: a companhia fazia coisas cada vez mais diferentes. Há o site de buscas, claro, que ainda se chama Google. O YouTube. Mas há o negócio dos carros autônomos, o sistema Android para celulares, a linha de casa inteligente com termostatos, trancas e câmeras que atende pela marca Nest, os relógios esportivos Fitbit. O Google de fato é muito mais do que um site de buscas.

O Facebook terá mais dificuldade de construir esse argumento — afinal, ele se compõe hoje de quatro negócios. Dois são redes sociais, Face e Insta. O terceiro é quase uma rede, o WhatsApp. Só a Oculus, de realidade virtual, escapa ao campo. Mas é um negócio de nicho. Hoje, um negócio pequeno.

Segundo o Verge, que possivelmente faz a melhor cobertura jornalística do Vale do Silício, o Facebook explicará que mudar o nome da holding tem a ver com o metaverso. Venderá ao mundo a ideia de que é a companhia que transformará a internet num mundo em que virtual e real se confundem. Em que realidades virtual e aumentada se juntam para que tenhamos a sensação de compartilhar, com outras pessoas, o mesmo espaço, ainda que estejamos em continentes distintos. Poderemos assistir a concertos de rock, conversar com amigos, fazer reuniões de trabalho. De repente, até namorar.

Há um problema, aí, que não é pequeno. O metaverso é um conceito fascinante, é um futuro possível para a internet, mas o metaverso não existe e não está próximo de existir. Os planos para a internet móvel 6G passam, justamente, pela capacidade de equipamentos e banda processarem e trafegarem informação suficiente para permitir realidade virtual. Ambientes 3D em que convivemos uns com os outros, mesmo que remotamente.

Ocorre que o 6G está programado para os primeiros anos da década de 2030. Falta muito tempo ainda. Aliás, pergunte a quem está aí na mesa ao lado o que é metaverso. Conta-se nos dedos quem sabe explicar. E, ainda assim, é tudo só em teoria, coisa de ficção científica, o Holodeck da série “Jornada nas Estrelas”. Se tanto.

Do ponto de vista de marketing, é um pesadelo. O Facebook anunciará ao mundo que agora é uma companhia que promove o metaverso. E rigorosamente nenhum de seus produtos pelos próximos anos oferecerá algo similar ao que o metaverso realmente é. Uma das cinco maiores companhias de tecnologia americanas fingirá que está num negócio quando, em verdade, tem por clientes quase metade da humanidade noutro ramo de atividade.

Sem conseguir elaborar respostas para as acusações que recebe, o Facebook vai tentar fingir que o Facebook é um detalhe — e só. (Pedro Doria)

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