A vida de Jhonata da Silva, de 26 anos, era um desafio diário. Ele nasceu com uma malformação cerebral e sofria seis crises epilépticas por dia na casa onde vive com a família em Boa Vista do Cuçari, no município de Prainha, oeste do Pará. A condição impediu que ele estudasse e trabalhasse. O quadro não se estabalizava, apesar do tratamento diário feito com quatro medicações. A esperança de ter qualidade vida surgiu com a calosotomia, metodologia cirúrgica realizada pela primeira vez no Pará esta semana, no Hospital Ophir Loyola (HOL), em Belém.

O neurocirurgião do Hospital, Francinaldo Gomes, especialista em cirurgia de epilepsia, explica que a intervenção é indicada para casos de epilepsia refratária, que não apresenta resposta ao tratamento com dois ou mais medicamentos. Era a situação de Jhonata. Na cirurgia, uma parte do corpo caloso é separada, levando à desconexão das partes frontais do cérebro. “O corpo caloso une esses dois hemisférios cerebrais, quando separado limita a propagação da atividade epiléptica de um lado para outro, melhorando as crises”, explicou Francinaldo.

A cirurgia durou em torno de duas horas. Utilizou-se um aparelho chamado neuronavegador, que funciona como uma espécie de GPS, unindo os dados das imagens de ressonância magnética com os dados da cabeça do paciente e, desta forma, permitindo determinar a melhor trajetória até o corpo caloso, evitando lesão de estruturas importantes e dando mais segurança ao paciente no momento da cirurgia. A intervenção costuma reduzir significativamente a frequência de crises e o risco de acidentes ocasionados pela queda.

Segundo o especialista, as crises do tipo drop attacks (crises atônicas ou ataques de queda) causam um impacto negativo na qualidade vida dos pacientes, que perdem a consciência e caem ao chão e ainda enfrentam o preconceito de pessoas mal informadas acerca da doença. Ao contrário do que muitos ainda pensam, e epilepsia não é contagiosa. O contato com a saliva do paciente não torna uma pessoa epiléptica.

“Eles caem com muita frequência e batem muito a cabeça, gerando uma série de consequências, como traumas, fraturas e coágulos nessa região. A cirurgia reduz a quantidade de crises em 70 a 80%, isso permite que o paciente tenha uma vida bem próxima do normal. E em alguns casos, reduz as crises em 100%, garante a cura”, enfatiza o especialista.

Essa é a expectativa de Janilvado Carvalho, 48 anos, que largou o emprego desde o nascimento de Jhonata. O jovem também possui dificuldade motora em todo o lado esquerdo do corpo, decorrente da malformação cerebral. Foram anos de luta até o hospital de Santarém encaminhar o paciente para fazer a cirurgia em São Paulo. “Os documentos vieram para cá (Belém) para autorização, então soubemos que o Hospital Ophir Loyola realizava o tratamento cirúrgico da doença. Espero que ele comece a ter uma vida digna”, disse a respeito do filho, que se recupera na Unidade de Terapia Intensiva do hospital.

(G1)