Mais uma mulher morreu com suspeita de erro médica no Hospital Geral de Parauapebas (HGP), no sudeste do Pará. A vítima é Ana Paula Gomes dos Santos, de 23 anos, que realizou uma curetagem na casa de saúde, após sofrer um aborto espontâneo.
O procedimento foi realizado na terça-feira (4/10) da semana passada. Ela ficou três dias internada e teve alta na sexta-feira (7/10), mas teria sido mandada para casa apresentando dores fortes nas pernas e na barriga, que ainda estava inchada. No sábado (8/10), ela foi levada pelo marido dela, Thiago Silva Alves, de 24 anos, para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA), no Bairro Cidade Jardim, após ter o quadro de saúde agravado.
Na UPA, a enfermeira e o médico que atenderam viram que ela estava com forte infecção e que a situação era grave. Ana Paula foi encaminhada para o HPG novamente e de lá para o Hospital Municipal de Parauapebas (HMP), onde foi direto para a chamada Sala Vermelha e veio a óbito na madrugada de domingo (9/10).
O caso – De acordo com Thiago, que era casado sete anos com Ana Paula e juntos tem dois filhos, ela apresentou dores e forte sangramento na quinta-feira (29/9). Ele comprou remédio para cólica menstrual, mas as dores e o sangramento não diminuíam e, na segunda-feira (3/10), ela foi levada para o Hospital Geral de Parauapebas, onde ficou internada e foi informado que ela tinha sofrido um aborto espontâneo e que iria passar por uma curetagem, que seria feita na manhã de terça-feira.
Ainda segundo Thiago, o procedimento, no entanto, foi feito no período da tarde. “Na noite de terça-feira eu estive com ela e, aparentemente, ela estava bem. Inclusive se alimentou. No entanto, como trabalho, voltei para casa. Na manhã de quarta uma amiga esteve com ela. À noite, eu fui para ficar um tempo com ela, mas não deixaram eu entrar, porque estava sem a carteira de vacinação contra Covid-19. Na manhã de quinta-feira (6/10) fiquei sabendo que ela estava se sentindo mal, inclusive com falta de ar. À noite, após conseguir a carteira de vacinação, fui visitá-la e ela me disse que estava mal. Eu falei com uma enfermeira e disse que ela não estava conseguindo comer, não estava sentindo as pernas e seu estômago não parava de doer. A enfermeira argumentou que isso era normal, porque ela tinha feito uma curetagem. Na manhã de sexta-feira, eles deram alta para ela, mesmo ela estando sem conseguir andar e com a barriga inchada”, detalha o homem.
A alta foi assinada pelo médico ginecologista Jean Peterson. Ele relata que ao chegar em casa, ele fez uma sopa para a mulher, mas ela não conseguiu comer e só foi piorando ainda mais.
“No sábado, eu a levei para a UPA, onde a enfermeira viu que já estava saindo pus dos braços dela. O médico que atendeu ela me perguntou o que tinha ocorrido e ele ficou indignado, dizendo que isso não era para ter ocorrido, inclusive ela ter tido alta naquele estado. Ele entrou em contato com o HGP e ela foi encaminhada novamente para o hospital. Durante o trajeto, ela vinha sentido muitas dores, inclusive gritava de dor quando a ambulância passava em buracos ou quebra-molas. Ela ainda chegou a me dizer para que não a levasse para o HGP, porque estava tendo muitos casos de erros médicos e pessoas morrendo”, relata Thiago, aos prantos.
Ao chegar no HGP, passando algum tempo, ela foi transferida para a Sala Vermelha do HMP, onde faleceu. “Quando ela foi transferida para o HMP, o médico, por volta de 1h30 para 2h, permitiu que eu e meu cunhando a visse. Foi à última vez que falei com ela, que faleceu por volta de 3h40”, lembra Thiago.
De acordo com ela, por uma fresta, ele viu a equipe médica tentando reanimá-la. Pouco tempo depois, foi informado que ela tinha falecido. “Minha esposa morreu sagrando pela boca. Inclusive tiveram que colocar uma atadura para fechar sua boca, devido ao sangue que ela expelia”, conta ele, revoltado.
Material – Em um áudio que tem, que foi gravado pelo irmão de Ana Paula, pouco depois do falecimento dela, uma pessoa com quem ele conversa no hospital, que não sabe o nome, diz que há fortes indícios de que ela tenha sido vítima de erro médico. Inclusive foram encontrados, após outro procedimento feito, gaze e outro material não informado dentro do útero de Ana Paula.
“Olha, vou falar aqui entre nós, mas se perguntarem eu nego, processem o hospital porque provavelmente, possivelmente, há muitas chances que possa ter sido [morte] por causa da cirurgia. Não era para ele ter tido alta, era para ter ido da maternidade direto para a UTI”, diz a pessoa.
“O médico disse que até o fígado dela estava ferido. Ele explicou que se fosse só a dilaceração do fígado, tinha como tentar salvá-la, porque poderia se cortar a parte afetada, porque o órgão se regenera, mas ela estava toda infeccionada por dentro”, detalha Thiago.
Muito abalado, ele diz que o que fizeram com sua esposa foi um ato desumano. “Como ficam nossos filhos agora, sem mãe”, lamenta, observando que irão entrar com ação na justiça contra o HGP.
O corpo de Ana Paula foi levado para ser sepultado na cidade de Esperantina, no Tocantins, onde moram seus familiares. Ela é a segunda mulher que morre em menos de um mês com suspeita de erro no atendimento obstétrico no hospital. Ainda há a morte de um bebê, que nasceu morto dentro do carro, quando a mãe estava sendo levada para Marabá, após ela, em trabalho de parto, ser mandada duas vezes para casa pelo HGP.
Até o momento o HGP não divulgou posicionamento, mas o espaço está aberto para a manifestação. (Com informações de Tina DeBord)


