A segunda mesa da 1ª Conferência Municipal sobre Mudanças Climáticas, realizada na tarde desta quinta-feira (23) na Câmara Municipal de Marabá, reuniu lideranças comunitárias e representantes de organizações sociais para discutir os desafios e as oportunidades da agenda climática no município. O debate buscou aproximar as pautas globais sobre sustentabilidade da realidade local, destacando a necessidade de ações conjuntas entre poder público e sociedade civil.
A coordenadora do Núcleo Regional da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), Fernanda Costa Miranda, ressaltou que a adoção do princípio “pensar globalmente e agir localmente” deve orientar as políticas ambientais de Marabá. Segundo ela, o enfrentamento de problemas cotidianos como enchentes e aumento das temperaturas exige planejamento e envolvimento social.
“Precisamos substituir a cultura do corte e queima na produção agrícola por práticas sustentáveis e desenvolver um plano específico para Marabá, com estudos sobre as principais fontes de poluição, áreas de desmatamento e geração de resíduos”, afirmou.
Fernanda também defendeu que as discussões da COP30 sejam traduzidas para a realidade do município, com metas e legislações adaptadas ao contexto local. Ela sugeriu a revisão da Lei Orgânica de Marabá, de forma a adequar suas diretrizes às demandas ambientais atuais.
A mobilizadora do Instituto Zé Cláudio e Maria, Polly Soares, enfatizou que a crise climática deve ser compreendida como resultado da exploração intensiva dos recursos naturais.
“A crise climática não é algo natural. É consequência de um modelo de desenvolvimento que fragiliza o meio ambiente. A pecuária extensiva e a poluição industrial, como a causada pela JBS, são exemplos de fatores que agravam esse quadro”, pontuou.
Ela também criticou soluções de caráter econômico apresentadas em fóruns internacionais, como a comercialização de créditos de carbono. Para Polly, as alternativas eficazes partem das comunidades amazônicas, que historicamente vivem em equilíbrio com a natureza. Entre suas sugestões, estão a criação de um plano municipal de ação climática, o plantio de árvores em áreas urbanas, a recuperação de nascentes e a proibição da pulverização aérea de agrotóxicos, além do incentivo à agroecologia.
A experiência da Cooperativa dos Recicladores de Marabá (Corema) também foi apresentada durante a mesa. A fundadora Francisca Fernandes destacou que o grupo, criado em 2019, atua no bairro Nossa Senhora Aparecida e reúne atualmente 25 famílias que vivem da coleta seletiva.
“Em Marabá ainda não há o hábito de separar o lixo, o que poderia gerar mais empregos e reduzir impactos ambientais. Desde 2020, já recolhemos 749 toneladas de resíduos, mesmo sem apoio do poder público”, relatou.
O presidente da cooperativa, Wesley Faustino Martins, afirmou que o principal obstáculo à expansão de iniciativas sustentáveis é a resistência à mudança de comportamento. “Para transformar a cidade, é preciso primeiro mudar a forma como enxergamos os recursos naturais”, observou.
As discussões mostraram que, embora os obstáculos sejam expressivos, há propostas concretas para avançar na construção de políticas ambientais locais. As sugestões apresentadas vão desde revisões legais e fortalecimento institucional até ações comunitárias e práticas sustentáveis, como hortas urbanas e coleta seletiva.
A conferência evidenciou que o enfrentamento das mudanças climáticas depende da articulação entre governo e sociedade. Experiências locais, como a da Corema, reforçam que soluções viáveis já estão em curso — e que o fortalecimento dessas iniciativas pode tornar Marabá referência regional em políticas ambientais de base comunitária.


