Eis a questão que cerca a prisão do australiano: ele pode ser considerado jornalista?

Uma questão assombra Julian Assange, o hacker australiano preso ontem em Londres, depois de sete anos refugiado na embaixada do Equador: até que ponto a atividade dele e do Wikileaks, organização que criou para incentivar o vazamento anônimo de informações, pode ser considerada jornalismo?

Não é fácil respondê-la. Tal dificuldade explica, em parte, por que a prisão demorou tanto tempo. Defensores de Assange argumentam que ele foi preso tão-somente por revelar segredos militares e diplomáticos americanos, que suas ações deveriam ser protegidas pelas garantias à liberdade de expressão em qualquer regime democrático que se preze.

O Wikileaks surgiu para o mundo em 2010, quando divulgou imagens comprovando o envolvimento de soldados americanos na morte arbitrária de civis iraquianos, em especial no vídeo chocante chamado “collateral damage” (dano colateral). Documentos depois publicados pelo site comprovaram abusos de direitos humanos no Afeganistão e na prisão de Guantánamo.

Assange se tornou uma celebridade internacional pouco tempo depois, com a publicação de centenas de milhares de telegramas diplomáticos expondo as entranhas do Departamento de Estado americano. Os documentos também revelaram a identidade de informantes secretos, depois perseguidos nos países em que atuavam.

Tal episódio levou à ruptura na parceria entre o Wikileaks e os veículos de imprensa usados para divulgar as informações em primeira mão, como The GuardianThe New York Times e Der Spiegel. Assange, eles constataram, não tinha o mesmo cuidado com as consequências da publicação de segredos que os profissionais da imprensa.

Seu principal objetivo era provocar o dano às potências afetadas, mesmo que também houvesse, para empregar sua própria expressão, outros danos colaterais. Jornalistas costumam ser mais cautelosos. Todo manual de ética do ofício recomenda que se evite publicar uma informação sempre que ela puder pôr inocentes em risco.

O WIkileaks criou um problema de escala. Se é natural tomar todo cuidado ao lidar com poucos documentos secretos, como agir para verificar possíveis consequências em centenas de milhares? Assange manifestava preocupação, mas preferia publicar quando a tarefa se revelava inviável.

A mera formulação da questão demonstra haver um componente jornalístico em sua atividade. Mas não é um componente exclusivo, nem mesmo o essencial. Para Assange, o importante mesmo era enfrentar os poderes por meio da transparência quase absoluta.

Ele se filia mais à linhagem de libertários digitais que construíram a arquitetura aberta da internet que à dos heróis do jornalismo investigativo. Para Alan Rusbridger, diretor de redação do Guardian na época da parceria com Assange, trata-se do melhor exemplo de uma nova cepa híbrida, surgida na era digital: os editores-ativistas.

O governo americano, principal atingido pelas revelações do Wikileaks, enfrentou desde o início dificuldade para enquadrá-lo nas leis. Qualquer tentativa de processá-lo pela divulgação de documentos secretos – por maiores que fossem os danos colaterais – esbarraria na proteção absoluta da Primeira Emenda à liberdade de expressão.

Não é um acaso que Assange seja posto, por defensores da liberdade de imprensa, na mesma classe de Daniel Ellsberg (informante que vazou os célebres Documentos do Pentágono nos anos 1970) ou de Edward Snowden (responsável pelo furto dos arquivos que expuseram os progamas de espionagem do governo americano).

A lei é clara sobre o tipo de punição para quem furta e vaza documentos secretos. Tanto que Chelsea Manning, soldada que entregou ao Wikileaks os arquivos secretos sobre Iraque, Afeganistão e telegramas diplomáticos disfarçados num CD de Lady Gaga, foi condenada e ficou presa até a comutação de sua sentença por Barack Obama (depois, voltou a ser presa, acusada de outra violação). Snowden também teria sido preso, não tivesse obtido refúgio na Rússia.

Mas o caso de Assange é mais complexo. O indiciamento contra ele só foi concluído em março do ano passado, oito anos depois de Manning furtar os arquivos. Ele foi acusado não pela publicação dos documentos, nem por qualquer dano colateral derivado dela, mas por ter ajudado Manning a invadir os sistemas do governo para furtá-los. Por suas atividades de hacker, não de jornalista.

Embora tanto hackers quanto jornalistas estejam interessados em obter informação, há diferenças essenciais na ética que rege seus comportamentos. O que pode ser aceitável a um não necessariamente é ao outro. Na atividade jornalística, invadir sistemas (mesmo que sem provocar dano), é o equivalente a entrar numa casa sem autorização (mesmo que só para olhar). É crime.

As investigações do procurador-especial Robert Mueller sobre a campanha eleitoral de 2016 demonstraram que agências de espionagem russas usaram o Wikileaks para vazar e-mails furtados do Comitê Nacional Democrata (DNC). Embora Assange não tenha sido acusado formalmente, também poderia estar sujeito a processo por espionagem em favor de um governo estrangeiro.

Nenhuma organização jornalística séria teria publicado as informações se conhecesse sua origem. Apesar da tentativa canhestra para disfarçá-la por meio da identidade fantasiosa Guccifer 2.0, desde o início estava claro o vínculo entre a invasão ao DNC e hackers russos.

O narcisismo de Assange, seu estilo autocrático no comando do Wikileaks, seu apego aos holofotes e o tratamento teatral que conferiu a cada passo de sua carreira o tornaram objeto de amor e ódio.

Por ter encontrado uma rival em Hillary Clinton, é admirado tanto por partidários de Donald Trump quanto de Bernie Sanders. Detestado pela imprensa profissional, atacado como agente russo, visto por governos como risco à segurança nacional, seria um erro ver Assange como jornalista. Mais que ninguém, contudo, ele testou os limites da liberdade de expressão na Era Digital.

Helio Gurovitz, colunista do G1