Nas margens do rio Tapajós, no Pará, Fordlândia nasceu com a ambição de transformar a selva em uma engrenagem essencial da indústria automobilística mundial. O plano, criado por Henry Ford, era ousado: garantir a própria produção de látex, material usado para fabricar a borracha, que se encontrava no território asiático e estava sob monopólio inglês.
Mas o projeto, iniciado em 1928, rapidamente se tornou um caso clássico de sonhos grandiosos confrontados pela realidade amazônica, por erros de cálculo e pela falta de compreensão do ambiente e das pessoas que ali viviam.
Tudo começou em 1928, quando Henry Ford fundou a Ford Motors Company e apresentou ao mundo um novo método de produção de automóveis. Ele já não era apenas um industrial de sucesso: aos 65 anos, o empresário simbolizava a própria modernidade. Seu nome estava associado a uma transformação profunda na indústria quanto a que, décadas depois, seria lembrada em figuras como Steve Jobs.
Desde a criação, 25 anos antes, ele havia conduzido a empresa a um patamar de protagonismo global, guiando o desenvolvimento das técnicas de produção em massa e popularizando o automóvel entre trabalhadores comuns. Foi essa visão, que mudou para sempre a forma de produzir e consumir no mundo, que impulsionou Ford a mirar a Amazônia, mais precisamente no Pará, em busca de matéria-prima para sua próxima grande aposta.
1. Um negócio mal explicado: o golpe
Naquele período, o governo paraense oferecia áreas gratuitamente para quem desejasse plantar seringueiras. Ao saber do interesse de Henry Ford na Amazônia, o empresário cafeicultor Jorge Dumont Villares buscou e obteve extensas áreas distribuídas em sete pontos. Quando os representantes da companhia chegaram ao Pará, Villares apresentou apenas terras de sua propriedade particular.
Sem saber que poderia requisitar as áreas de graça, Ford desembolsou 125 mil dólares por cerca de 1 milhão de hectares – e ainda recebeu um terreno inadequado para o cultivo de seringueiras.

2. A construção de uma “América” no meio da floresta
Em 1928, iniciou-se a derrubada da floresta para erguer a nova vila e iniciar as plantações das seringueiras. Dois navios, Lake Ormoc e Lake Farge, trouxeram dos Estados Unidosdesde madeira e telhas até mudas de árvores e equipamentos. Uma das embarcações chegou até a funcionar como hospital e fornecedora de energia elétrica temporária.
Quando a obra tomou forma, Fordlândia parecia uma pequena cidade americana transportada para o Pará: casas dos administradores, que contavam com piscina, gramados para golfe, cinema, entre outras comodidades.
3. Vida de trabalhadores e choque cultural
Os administradores norte-americanos viviam em estruturas mais amplas e confortáveis, enquanto os trabalhadores brasileiros eram acomodados em moradias simples. Ainda assim, o salário atraiu candidatos de várias localidades, mesmo que muitos fossem recusados por questões de saúde.
A rotina imposta pela empresa contrastava com os hábitos locais. Em vez do ritmo ditado pelo sol, costume brasileiro, valiam o relógio de ponto e a sirene para marcar turnos e pausas, imposto pelos americanos. O consumo de álcool era proibido, mas isso não impediu a entrada clandestina de bebida, que chegava escondida até dentro de melancias desembarcadas pelo rio.

4. As seringueiras que não vingaram
Logo no início, a plantação enfrentou o mal-das-folhas, fungo que devastava as árvores e comprometia a extração de látex. Além disso, o avanço das áreas plantadas foi muito abaixo do esperado: de 400 hectares em 1929 para 900 em 1931, quando o plano original previa 200 mil hectares cultivados.
Apenas em 1932 a empresa trouxe o especialista James R. Weir, que recomendou a transferência da produção para Belterra, onde o solo era mais adequado. Mesmo assim, os resultados continuaram limitados.
5. O declínio e o abandono
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) acelerou a produção de borracha sintética, diminuindo a dependência do látex natural e tornando o investimento de Ford ainda menos viável. Com a nova lógica de produção, mais terceirizada, já não fazia sentido manter um complexo tão distante e custoso.
Em 1945, após acumular perdas de 9 milhões de dólares, Henry Ford vendeu as terras ao governo brasileiro por 250 mil dólares. Desde então, Fordlândia permanece como um cenário de memórias. (Com Diário do Pará)



