"João Branco" e "Zé Roberto": de ex-aliados a inimigos mortais

A criação de uma nova dissidência da facção criminosa Família do Norte, batizada de “FDN Pura” ou “Potência Máxima”, foi a motivação dos 55 assassinatos ocorridos em quatro unidades no sistema prisional amazonense neste domingo (26) e segunda-feira (27). Nove dos apontados como os responsáveis pelas mortes foram transferidos ontem (28) para presídios federais. 

O racha entre os antigos aliados e narcotraficantes condenados João Pinto Carioca, o “João Branco”, e José Roberto Fernandes, o “Zé Roberto da Compensa”, já havia sido identificado pelo Departamento de Inteligência Penitenciária (Dipen), ligado à Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap). A reportagem teve acesso a um relatório, datado do dia 22 de maio, que detalha o clima de tensão entre os traficantes. A esposa de “João Branco”, Sheila Maria Faustino Peres, era a responsável por levar as ordens do marido para seus aliados, mas “Zé Roberto” descobriu o plano.

O relatório detalha que “João Branco” estaria insatisfeito com os caminhos que a FDN vinha tomando sob o comando de “Zé Roberto”, no que tange principalmente a venda de drogas, perda do poder da facção no Sistema Prisional Amazonense e a guerra entre facções no Estado.

Diante deste cenário, “João Branco” vinha trabalhando na criação de uma nova facção, a “FDN Pura” ou “Potência Máxima” – apelido pelo qual “João Branco” era conhecido no mundo do crime antes de ser preso.  “Evidencia-se que há internos custodiados no Sistema que relatam obediência e lealdade somente a ‘João Branco’, corroborando para essa possível nova realidade”, destaca o relatório, citando também uma declaração de guerra entre os grupos ligados a “João Branco” e “Zé Roberto”. ” (…) e estas se iniciariam pelo sistema prisional, pois é onde se encontram os principais aliados e apoiadores dessas lideranças”.

A reportagem apurou que a esposa de “João Branco”, Sheila Maria Faustino Peres, foi quem trouxe a Manaus a ordem para eliminar lideranças rivais. A orientação com os nomes de quem deveria ser morto foi levada até as unidades prisionais por parentes de detentos de confiança de “João Branco”, mas o plano acabou vazando. Assim, a tentativa de “golpe” foi descoberta e quem acabou morrendo, segundo levantamento preliminar, foram presos ligados ao próprio “João Branco”.

O cenário de confronto, como de fato ocorreu, também foi antecipado pelo Dipen, que previa o foco principal de conflito como o Centro de Detenção Provisória Masculino (CDPM). “Porém não se descarta que ações simultâneas possam ocorrer nas demais unidades do Estado”. Dentre todas as unidades, o CDPM acabou sendo o que teve a menor quantidade de mortos – cinco. Foram 25 mortes no Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), 19 no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) e seis na Unidade Prisional do Puraquequara (UPP).

Ao citar a ameaça de confronto entre os aliados de “João Branco” e “Zé Roberto”, o Dipen destaca que “acontecimentos como este são de difícil controle por parte do Estado, pois a motivação única é a eliminação de rivais”. Vale destacar que, em 2017, as informações sobre possíveis mortes no ocorridas no sistema foram antecipadas por este DI, com isso as unidades permaneceram trancadas. Entretanto, isso não impediu as mortes que ocorreram no interior das celas por internos que possuíam, até então, bom convívio”.

A Crítica