Apesar das resistências internas, o MDB oficializou a senadora Simone Tebet (MT) como candidata à Presidência da República pelo partido. Em convenção virtual, realizada nesta quarta-feira, a indicação foi aprovada com o aval da maioria dos diretórios da legenda. Foram 262 votos favoráveis à candidatura própria e apenas 9 votos “não”. Mais cedo, a federação formada por PSDB e Cidadania confirmou a aliança eleitoral com Simone, mas adiaram a escolha de um nome para a vice.
Votaram 182 delegados do partido — alguns têm direito a mais de um voto, por causa das funções que desempenham na sigla e se possuem cargo eletivo, por exemplo. Outros 97 delegados, porém, não votaram, como os integrantes dos diretórios de Alagoas e Paraíba.
— A candidatura da futura presidente do Brasil, Simone Tebet, teve aprovação de 97% da nossa convenção. Não percorremos o caminho mais fácil, não percorremos o caminho da velha política, do ‘toma lá, dá cá’, das negociações não republicanas. Não percorremos um caminho fácil, mas percorremos o melhor caminho — afirmou Baleia Rossi, presidente nacional do partido, ao comentar o resultado.
Ao se pronunciar mais cedo, ainda na reunião, Tebet argumentou que a candidatura própria ao Palácio do Planalto dará à sigla mais envergadura para eleger um número maior de postulantes ao Legislativo.
Com a declaração, a senadora tentou atrair os correligionários que vão concorrer a vagas no Parlamento, que costumam argumentar que o partido deveria investir os recursos de que dispõe para tentar aumentar suas bancadas no Congresso, em vez de apostar numa candidatura ao Executivo federal que soma 1% nas pesquisas, como Tebet.
— Em 2020, o Brasil viu o MDB continuar sendo a maior força política partidária do país, com o maior número de eleitos (para prefeituras). Agora temos condições de nos tornar gigantes. Estamos prontos para fazer o maio número de deputados estaduais, federais, senadores e governadores — afirmou ela em seu discurso.
Após a confirmação de seu nome como candidata do MDB, Tebet disse que se tornará mais conhecida com o trabalho forte nas redes sociais e de viagens.
— Eu não tenho medo de nada. Sou ficha limpa e posso andar nas ruas com tranquilidade, conversar com pessoas e dar entrevistas. Estou muito confiante que a partir de agora me torno mais conhecida. Não precisaremos chegar a dois dígitos para estarmos convictos que estaremos no segundo turno — afirmou, fazendo alusão aos adversários Lula e Bolsonaro, que não confirmaram participação em debates.
A candidatura de Tebet foi a que vingou de todas as tentativas de organização da chamada terceira via, e ela se coloca como a opção para o eleitor que quer fugir da polarização entre Lula e Bolsonaro. Outras propostas de candidaturas para se opor a esse cenário polarizado foram naufragando ao longo dos últimos anos. O apresentador Luciano Huck surgiu como opção em 2018, mas desistiu de abrir mão da carreira para se tornar político.
Na esteira da Lava Jato, o nome do ex-juiz Sergio Moro também figurou como opção de presidenciável, mas sucumbiu. Ao deixar o governo Bolsonaro brigado com o presidente, não teve força para se manter num patamar de candidato competitivo. Inicialmente, se filiou ao Podemos, mas deixou a sigla rumo ao União Brasil, onde acreditou que teria mais espaço. Perdeu a indicação para o presidente da sigla, Luciano Bivar, que é o pré-candidato. Após um revés na justiça eleitoral, que rejeitou a mudança de domicílio para São Paulo, será candidato ao Senado pelo Paraná.
Os tucanos também tentaram emplacar um novo nome à presidência, sem sucesso. O partido organizou prévias, ainda em 2021, para decidir se indicaria o gaúcho Eduardo Leite ou o paulista João Doria como presidenciável. Doria venceu a disputa interna, mas não levou. Leite renunciou ao governo do Rio Grande do Sul e sinalizou mudar de partido para disputar a presidência: não funcionou, e deve concorrer ao governo gaúcho novamente. Enfraquecido internamente nesta movimentação, Doria abriu mão da pré-candidatura e anunciou que não será mais candidato a nenhum cargo público, ao menos nesse pleito.
O apelo emocional deu a tônica no discurso de Tebet, que fez questão de repetir por diversas vezes as palavras “esperança, amor e coragem”. ela ressaltou que é mãe e mulher e disse que sua primeira promessa como candidata é acabar com a fome no país, no momento em que a senadora chorou junto com Baleia Rossi:
— Meu primeiro compromisso é acabar com a fome, erradicar a miséria e diminuir a pobreza. Nenhuma criança mais vai dormir com fome num país que exporta e alimenta 800 milhões de pessoas em todo o planeta.
Como única mulher de um partido grande a ser confirmada até agora na disputa presidencial, Tebet também prometeu um “governo afetivo”. O apelo patriótico também esteve presente na fala de Tebet, que declarou que “coloca a vida a favor do Brasil”:
— O que me trouxe até aqui foi a mesma coisa que me levou à política – o amor pelo Brasil. (…) Nós somos um gigante que estava adormecido.
Divisão no partido
O MDB realizou a convenção virtual e contratou uma plataforma para promover uma votação sigilosa. Às vésperas da convenção, emedebistas contrários à escolha de Tebet entraram na Justiça para tentar adiar o evento, sob argumento de que o sistema não garantiria o sigilo do voto. O pedido, porém, foi negado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O partido tem 279 convencionais — entre delegados, parlamentares, prefeitos e integrantes do partido que têm direito à voto —, e o mesmo convencional pode ter direito a mais de um voto. Por isso foram 418 votos possíveis.
Por sugestão desses integrantes, a votação foi postergada por duas vezes: o resultado, antes previsto para sair até 14h, só foi divulgado após 16h20. O sistema de votação formava um tipo de fila virtual, o que fez com que o processo fosse mais lento.
Em Alagoas e na Paraíba, porém, os delegados optaram por não votar. Os diretórios locais são comandados por aliados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva — Renan Calheiros (AL) e Veneziano Vital do Rêgo (PB).
— Não participei para demonstrar contrariedade com a condução, com a antecipação da data e com a manutenção do sistema de votação que identifica o voto. Defendi e defendo os candidatos competitivos do MDB contra essa circunstância de candidatura própria sem viabilidade eleitoral — justificou Renan.
Apesar das divergências internas, que vieram a público, a maioria dos emedebistas sempre se posicionou contra a judicializar a opção por Tebet — no fim, houve apenas um questionamento judicial feito por um aliado de Renan.
Segundo emedebistas da ala divergente, o presidente Baleia Rossi teria feito um pacto velado de que não interferiria nas questões estaduais se eles não arranjassem problemas em homologar a candidatura de Tebet no âmbito nacional.
Ao longo das mais de seis horas de convenção, esse movimento ficou bem claro: não houve discurso contrário à candidatura e todos os emedebistas que pediram para falar, elogiaram a candidata do partido. Os aliados de Baleia saíram da convenção, dizendo que esperavam mais oposição à candidatura de Tebet, o que não aconteceu.
Durante a convenção, houve diversas manifestações de que os contrários a Tebet eram minoria no partido e não poderiam ser chamados de “bons emedebistas”.
Em outros momentos, os emedebistas elogiaram a posição do de Baleia Rossi de seguir com a candidatura da parlamentar até o fim.
— Não fosse a tua determinação, provavelmente não teríamos a Simone hoje — disse o ex-governador Germano Rigotto, que é o coordenador do plano de governo de Tebet.
Em meio ao desânimo de caciques do MDB e PSDB, Baleia foi o principal articulista político da senadora junto com o presidente do Cidadania, Roberto Freire, que passou a acompanhá-la em todas as viagens da pré-campanha
Escolha do vice
Os PSDB e o Cidadania formam uma federação partidária, e também fizeram sua convenção nacional nesta quarta. Cabe a eles a indicação do vice na chapa encabeçada por Tebet.
A preferência da senadora é pelo tucano Tasso Jereissati (CE), mas ele próprio tem admitido a aliados que vem perdendo o entusiasmo com a possibilidade de compor com a colega de Senado. O resfriamento da relação se deu, sobretudo, em virtude das dificuldades que tucanos e emedebistas têm tido para chegar a acordos em disputas estaduais. Na maioria dos casos, nenhuma das duas siglas abre mão de indicar o cabeça de chapa na corrida pelo governo local.
De acordo com Bruno Araújo, presidente nacional do PSDB, a decisão sobre a vice cabe a Tasso. O PSDB espera que ele tome uma decisão até a quinta-feira. Caso ele abra mão da posição, a tendência é de que a nova indicação seja dos quadros tucanos, mas pode sair até o dia 5 de agosto, último prazo possível.
O senador estava preparado para participar ao vivo da transmissão em que os dirigentes do MDB, PSDB e Cidadania comentavam a oficialização da candidatura de Tebet, mas acabou desistindo por causa do atraso da convenção. Mandou, então, um vídeo reiterando o apoio à candidata, mas não se comprometendo com nenhum cargo:
— Estarei, Simone, a seu lado a todo momento, em qualquer lugar. A sua presença nessa campanha significa a capacidade de unir o país. Mesmo que não possamos tomar posição hoje, isso depende de questões políticas e eleitorais e também circusntanciais, estarei ao seu lado trabalhando por você.
Centro democrático
Apesar de a reunião ser virtual, o presidente nacional do partido, Baleia Rossi, conduziu a convenção diretamente da sede do partido em Brasília. Durante a abertura, ele esteve acompanhado dos presidentes do PSDB, Bruno Araújo, e Cidadania, Roberto Freire, partidos que apoiam a candidatura de Tebet. Baleia destacou que os três partidos formam o “centro democrático”.
— Agora Simone carrega e represente a todos nós, nesse momento de esperança, de crença, de um país que busca firmar sue processo de democracia — afirmou Araújo ao destacar a união entre as siglas.
Um dos primeiros emedebistas a falar, o ex-ministro Carlos Marun admitiu que o partido chegava rachado à convenção:
— Não adianta tapar o sol com a peneira, o nosso MDB não chega unido a essa convenção, mas vamos tomar uma decisão por maioria.
O ex-presidente Michel Temer cumprimentou os companheiros de partido e Simone Tebet, desejando a ela sucesso na campanha. Ele clamou por pacificação nacional e exaltou feitos do próprio governo, como a reforma trabalhista:
— Precisamos ter coragem para defender as teses do que fizemos no governo. (Com O Globo)


