Decisão de implodir pontes gera reação contrária e não pode ser exclusiva do Dnit em Marabá

Possibilidade de implosão das duas pontes sobre o Rio itacaiúnas vem gerando indignação na população devido a falta de transparência por parte do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes.
Foto: Portal Debate

MARABÁ (PA) – A possibilidade de implosão das duas pontes sobre o Rio Itacaiúnas provocou forte reação de autoridades, engenheiros e entidades representativas em Marabá. A principal crítica é a falta de diálogo e transparência por parte do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), diante de uma medida considerada extrema e sem necessidade.

Diante da celeuma instalada na cidade, a reportagem do Portal Debate ouviu diversos setores diretamente impactados e encontrou um posicionamento majoritariamente contrário à demolição das estruturas. O assunto promete render bastante discussão nos próximos dias em Marabá.

Entre engenheiros consultados, o entendimento é praticamente unânime: não há justificativa técnica clara, até o momento, que sustente a implosão. Segundo o engenheiro civil e ex-ministro Pádua Andrade, existem alternativas modernas para recuperação estrutural. Para ele, o Dnit só derruba as pontes “se quiser”, pois não haveria necessidade de uma medida tão radical neste momento.

Na noite da quinta-feira (19), o comandante do 5º Grupamento Bombeiro Militar, Felipe Galúcio, informou que a corporação não foi acionada pelo Dnit para emissão de laudo técnico que indicasse risco iminente de desabamento das pontes e suspensão parcial do trânsito na chamada “segunda ponte”.

A falta de transparência também levou a Câmara Municipal de Marabá (CMM) a convocar o diretor do Dnit, o engenheiro Jairo Rabelo, para prestar esclarecimentos na próxima terça-feira (24). De acordo com o presidente da Casa, Ilker Moraes, os vereadores foram convidados pelo Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) para uma reunião sobre o tema, e não pelo próprio Dnit. Ele classificou a situação como “estranha e açodada”.

Representantes do setor produtivo também relataram ausência de diálogo. O presidente do Sindicato do Comércio de Marabá, Raimundo Neto, afirmou que não houve qualquer consulta por parte do órgão federal. A mesma posição foi manifestada por Nilva Olivi, presidenta da Associação Comercial e Industrial de Marabá (ACIM).

Os dois sindicalistas demonstraram preocupação com os impactos econômicos, especialmente no Núcleo Marabá Pioneira, que poderá sofrer um “isolamento” com engarrafamentos e dificuldades de acesso, caso as pontes sejam interditadas ou demolidas pelo Denit. “Netão” criticou a falta de diálogo e esclarecimentos sobre a suposta implosão.

Foto: Portal Debate

A presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Pará (CREA-PA), engenheira Adriana Falconeri, também declarou desconhecer qualquer decisão oficial sobre a implosão e afirmou que a entidade não foi notificada pelo Dnit. Ela disse que iria fazer contato com o Denit para verificar a situação das pontes e adotar as medidas necessárias que o caso requer.

O engenheiro civil Fábio Moreira, ex-secretário de Obras de Marabá, criticou a falta de transparência. Segundo ele, a ausência de divulgação dos laudos técnicos preliminares impede uma análise mais segura da situação. Ainda assim, considera estranho discutir implosão enquanto o tráfego segue normal, especialmente na ponte mais antiga.

Já o projetista Carlos Fugante, em Curitiba, especialista em construção de pontes mundo afora, que participou do controle interno da obra da segunda ponte em Marabá, detalhou que tudo foi executado dentro das normas técnicas. Para ele, não há necessidade de demolição, destacando a existência de tecnologias para recuperação de “patologias estruturais” no Brasil.

Na mesma linha, o engenheiro Dario Veloso também se posicionou contrário à implosão, classificando a proposta como estranha diante das alternativas modernas disponíveis no país. “Este problema precisa ser discutido às claras com a sociedade, pois, caso exista mesmo a decisão de implodir as pontes, toda a população de Marabá será impactada”, afirmou. Dário chamou a atenção para a necessidade de um amplo debate sobre o assunto.

Em Belém, o engenheiro Fernando Navarro, que atuou na execução de parte da fundação da chamada “ponte nova”, afirmou que não é possível emitir um parecer definitivo sem acesso aos laudos da empresa responsável pelo monitoramento. No entanto, após visita informal recente, avaliou que os problemas aparentes poderiam ser reparáveis. Ele ressaltou que os engenheiros da empresa, responsável pelo monitoramento da estrutura da ponte, são capacitados para emitir um laudo técnico fidedigno.

A reportagem também conversou, na tarde desta sexta-feira (20), com o engenheiro Jairo Rabelo. Ele destacou que o Dnit não emitiu nenhum parecer definitivo sobre a implosão, mas admitiu que, caso o laudo técnico final aponte nesse sentido, a medida poderá ser adotada. Jairo não forneceu os laudos técnicos preliminares para a reportagem do Portal Debate e observou que o relatório final será divulgado pelo Dnit nas próximas semanas.

As pontes do Rio Itacaiúnas são consideradas parte do patrimônio simbólico de Marabá, com forte valor cultural e impacto direto na mobilidade urbana. Por isso, a possibilidade de demolição sem um amplo debate público tem gerado insegurança e questionamentos pela população de Marabá.

Uma eventual derrubada afetaria diretamente empresários, trabalhadores, estudantes, pescadores, taxistas, mototaxistas, o transporte coletivo e moradores de áreas próximas à Ponte Ana Miranda, além de trazer grandes impactos ambientais, logo estes entes sociais também necessitam ser ouvidos porque serão impactados diretamente pela implosão das pontes.

Para muitos, outro ponto preocupante é o contexto político nacional. Em ano eleitoral, há dúvidas sobre a continuidade de investimentos caso haja mudança de governo em 2027, o que poderia comprometer a construção de novas estruturas, pois o governo eleito costuma suspender todos os pagamentos até “tomar pé” da situação financeira do país.

Diante desse cenário, cresce a defesa de que qualquer decisão sobre as pontes seja amplamente discutida com a sociedade, por meio de audiências públicas e participação efetiva de todos os setores envolvidos. Levando-se em conta o “custo benefício” de uma implosão ou recuperação das pontes.

Para os entrevistados, uma obra dessa magnitude não pode ser definida de forma unilateral, em gabinete, sem transparência e sem ouvir a população diretamente afetada. No entanto, rola nos bastidores de Brasília (DF) que o Dnit, depois da tragédia da Ponte Juscelino Kubitschek, na BR-226, entre Estreito, no Maranhão, e Aguiarnópolis, no Tocantins, ocorrida no dia 22 de dezembro de 2024, teria decidido demolir em vez de recuperar todas as pontes que apresentem problemas estruturais no país, ou seja, caso se opte pela implosão das pontes em Marabá, a decisão poderá ser mais “política” do que técnica. (Pedro Souza)

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