Ex-aliados expõem ‘abandono’ de Bolsonaro após aliança com o Centrão

Presidente afastado do PTB preparou o opartido para Bolsonaro e foi ignorado; ativista diz que governo ‘decepcionou conservadores’
Bolsonaro e Roberto Jefferson no Palácio do Planalto, em setembro de 2020 Foto: Reprodução / Facebook / PTB

BRASÍLIA (DF) – Roberto Jefferson, conhecido no bolsonarismo Como “Bob Jeff”,  passou o último ano reestruturando o partido que comanda com mãos de ferro, o PTB, para atrair o presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores. O cacique reformulou o estatuto para uma linha mais conservadora, expurgou lideranças históricas nos estados e arranjou briga até com a filha por divergências quanto ao uso medicinal da cannabis sativa.

Preso desde agosto de 2021, ele, no entanto, recebeu duros golpes. Na quarta-feira (10), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes o afastou por seis meses do comando da sigla por mau uso do fundo partidário, mas o cacique continuou os ataques ao integrante da Suprema Corte.

Sem mudar uma vírgula do estatuto ou afastar dirigentes, o PL, partido proeminente do Centrão, é a sigla política mais próxima, hoje, de receber Bolsonaro. A filiação chegou a ser marcada para o dia 22, mas foi adiada para que impasses nos estados sejam resolvidos. “Tem muita gente chateada com o Bolsonaro no PTB”, resumiu um integrante da legenda.

Antes de ir para a cadeia, “Bob Jeff” chegou a ter pelo menos dois encontros com o presidente no Palácio do Planalto para falar sobre a filiação partidária. E, no início de outubro, quando estava internado — e preso — num hospital no Rio, ele recebeu a visita de Waldir Ferraz, um dos amigos mais antigos de Bolsonaro.

“Fui falar que ele estava pegando pesado com os ministros “do STF”, disse Ferraz. Ele garantiu que foi por iniciativa própria, mas pessoas do entorno de Roberto Jefferson interpretaram a visita do aliado do presidente como um recado do próprio.

Algumas semanas depois, já de volta à cadeia, “Bob Jeff” escreveu em uma carta afirmando que Bolsonaro “fraquejou” ao não avançar nas demandas do “povo que foi às ruas” no dia 7 de setembro e o criticou por cercar-se de “viciados em dinheiro público”, citando Valdemar Costa Neto, presidente do PL.
Sara Giromini – Crédito: Reprodução

“Vergonha de gritar mito”. A presidente interina do PTB, Graciela Nienov, aliada de Jefferson, tentou colocar panos quentes na história, dizendo que tratava-se de um “desabafo”, porém também se disse “revoltada com o abandono do nosso presidente” — um áudio com as declarações circulou no WhatsApp.

O sentimento de “abandono” é compartilhado por outros bolsonaristas — ou ex-bolsonaristas, caso da ativista Sara Giromini, que teve cargo de coordenadora no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, comandado por Damares Alves, e organizou acampamentos em defesa do presidente em Brasília.

“Eu me decepcionei demais com o Bolsonaro. O governo dele foi uma grande ilusão para os conservadores. Eu tenho vergonha de quando saía na rua gritando mito”, lamenta Sara, que se queixa também da falta de apoio quando foi presa pelo (STF) após uma série de ataques à Corte.

“Nós recebíamos diretrizes diretas do Planalto. A Carla Zambelli e a Bia Kicis (deputadas) diziam em quem a gente deveria bater ou não. Tínhamos certeza que, se acontecesse alguma coisa, teríamos um respaldo legal, jurídico e econômico. O que aconteceu foi o contrário”, lamenta a extremista.

O blogueiro Oswaldo Eustáquio é outro integrante do grupo que também foi preso pelo STF por ter praticado atos antidemocráticos. Eustáquio, no entanto, diz que não se sentiu abandonado por Bolsonaro, mas por alguns integrantes do seu governo. Ele já foi preso duas vezes.

Nessa lista, enquadra-se o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), que confidenciou a pessoas próximas o desalento pela falta de apoio de colegas bolsonaristas, mas continua se declarando um apoiador fiel do presidente.

Depois de ficar quatro meses preso, ele saiu da cadeia na manhã da última terça-feira (9) e atendeu ao pedido do governo para votar à tarde a favor da PEC dos Precatórios, que foi aprovada em segundo turno na Câmara com 323 dos 308 votos necessários.

“O presidente Bolsonaro fez tudo o que estava ao alcance”, disse em entrevista à Rádio Jovem Pan na sexta-feira (12) e corre risco de voltar para cadeia porque descumpriu medidas cautelares impostas pelo STF.

A prisão de Daniel Silveira foi ratificada pelo plenário da Câmara dos Deputados com muito mais folga do que a PEC —364 votos dos 257 necessários —, o que incluiu 32 votos favoráveis do PL, provável destino de Bolsonaro. O caminhoneiro “Zé Trovão”, Ernesto Araújo e o blogueiro Allan dos Santos, entre outros, se dizem abandonados por Bolsonaro. A lista é grande. (Portal Debate Carajás, com O Globo)

Roberto Jefferson e Jair Bolsonaro
Roberto Jefferson (PDT) e Bolsonaro – Crédito: Reprodução

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