CANAÃ DOS CARAJÁS (PA) – Há anos, a Cooperativa de Garimpeiros Mineradores do Estado do Pará (Coogmep) trava uma “batalha inglória” para legalizar os pequenos mineradores de cobre, mas sem obter sucesso, na cidade de Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, onde vem perdendo a batalha para as gigantes mineradoras.
Para a Coogmep, a nomenclatura “garimpo ilegal” se aplica à extração de cobre em áreas indígenas, reserva ambiental, embaixo de torres de alta tensão, entre outros locais. O que não é o caso dos pequenos mineradores de Canaã dos Carajás, logo se trata de regularizar uma atividade mineral que já foi autorizada, na mesma área, para as grandes mineradoras.
Nos últimos anos, Canaã dos Carajás se tornou o polo de extração de cobre no Brasil. No entanto, os pequenos mineradores e garimpeiros defendem que é injusto que toda exploração mineral fique sob monopólio das gigantes Vale e BHP Billiton, que está chegando agora para iniciar a lavra, pois quando o “grande capital” chegou à cidade, conhecida como “Terra Prometida”, eles já trabalhavam na região, há anos.
A Cooperativa de Mineradores do Estado do Pará reúne cerca de 49 garimpeiros, que preferem ser chamados de pequenos mineradores, e lutam para regularizar um dos modelos de extração. Segundo eles, a lavra nas minas subterrâneas de cobre causa um impacto ambiental mínimo, quase sem desmatamento. Quando acaba a extração, o local vira um pequeno poço de água natural, pois o processo de extração mineral é artesanal, ao contrário, das multinacionais que, depois de abandonarem as minas, o local se torna uma “terra arrasada”.
Para a Coogmep, a BHP Billiton chegará à região com toda a documentação legalizada. Já no Projeto Mina do Sossego, da Vale, a área está sob posse da Mineradora, embora a propriedade seja da União. As áreas, projetos e operações da Vale em Canaã dos Carajás ocupam uma área de 414 km quadrados, o equivalente a cerca de 67 % do subsolo do município, porém o pequeno minerador nunca conseguiu legalizar um “palmo de terra” para sair da clandestinidade.
O grande capital e seus tentáculos “políticos e jurídicos” dominam a extração de cobre e ouro na “Terra Prometida”. Já para os pequenos mineradores, sobram, a cada mês, as operações da Polícia Federal (PF) como as que ocorreram recentemente uma em Marabá, duas em Canaã dos Carajás e uma em Curionópolis. “A gente vive com medo da polícia. Trabalhamos como se fôssemos bandidos. Entretanto, nós queremos apenas que permitam que a Coogmep legalize a atividade dos pequenos mineradores”, pondera a entidade sindical
De acordo com os reclamantes, existe a suspeita de que as grandes empresas fazem a denúncia contra os pequenos mineradores e “bancam” as despesas para os órgãos fiscalizadores e repressores realizarem as grandes operações contra eles, destruindo e queimando tudo. “Canaã dos Carajás só é a Terra Prometida para as grandes empresas, pois os pequenos mineradores não conseguem legalizar a extração de cobre e vivem na clandestinidade”, comentou, em reservado, um minerador com medo de ser identificado.
“Há dono de terra aqui morando em cima de milhões, alguns passando necessidade, porque não podem explorar o cobre”, afirmou o presidente da Coogmep. Ele destacou ainda que Canaã dos Carajás não é território indígena para viver sob os holofotes de órgãos fiscalizadores. Para os garimpeiros, só existe uma explicação para a quantidade de operações da Polícia Federal realizadas na Região de Carajás, a influência política e o capital financeiro das grandes mineradoras.
Segundo os pequenos mineradores, a PF diz que a extração irregular de minério acarreta seríssimos danos ambientais como a contaminação de solos e rios, todavia esse argumento só é utilizado contra os chamados “peixes pequenos”, pois os “tubarões” nunca foram importunados pelas constantes fiscalizações.

Helder Barbalho
Os filiados da Cooperativa de Mineradores do Estado do Pará dizem que a única saída para se garantir a lavra de cobre e salvar o emprego de milhares de pessoas, de maneira legalizada, é abrir um diálogo com o governador Helder Barbalho (MDB). Para eles, o governador precisa conhecer in loco a atividade extrativista e entender que os garimpeiros não são bandidos. Só estão lutando pela legalização dos pequenos mineradores de cobre da região de Canaã dos Carajás.
Os mineradores reclamam que a matéria publicada no jornal Valor Econômico, ligado ao Grupo Globo, no dia 13 de março de 2023, com o título “Garimpo ilegal avança sobre a Terra “Prometida”, foi mais um ataque “plantado” e direcionado aos pequenos mineradores, pois não existe explicação para, “do nada”, a gigante australiana BHP Billiton já iniciar seu processo de lavra com toda a documentação legalizada e os pequenos mineradores de Canaã dos Carajás não conseguem “avançar um palmo”, há anos, rumo a tão sonhada legalização. Como diz o ditado popular, “Tem caroço nesse angu”.
Segundo a Coogmep, no entorno da “Terra Prometida”, o trabalho no agronegócio é bastante escasso e quase ninguém labuta na roça. “O povo de Canaã dos Carajás só sabe trabalhar com minério, logo legalizar a atividade de pequenos mineradores é essencial para a sobrevivência dos garimpeiros”, finalizou. O Portal Debate fez contato com a Assessoria de Comunicação da Vale sobre as acusações dos pequenos mineradores e recebeu a nota abaixo. LEIA:
NOTA
A Vale esclarece que apresenta à Agência Nacional de Mineração todas as informações de que dispõe sobre a existência de indícios de lavra ilegal em títulos minerários da Companhia, atendendo à legislação e fornecendo dados requisitados pelo órgão regulador, a quem cabe adotar as ações cabíveis. Informa ainda que não interfere em operações de órgãos públicos, colaborando na forma da lei, e que exerce a sua prerrogativa de acionar as autoridades competentes sempre que necessário para defesa de seus direitos diante de situações ilegais.
Texto: Pedro Souza/ Portal Debate



