Cigarro eletrônico cria novo perfil de usuários de nicotina no Brasil

Atualmente, existem 19 projetos de lei sobre cigarros eletrônicos em análise no Congresso Nacional
Advanced personal vaporizer or e-cigarette, from above

Um pequeno dispositivo se tornou febre no Brasil e nomundo e chegou com uma proposta supostamente menos prejudicial à saúde do que o cigarro convencional, ou mesmo uma forma de ajudar a parar de fumar. Mas, foi através desse discurso enganoso, que o cigarro eletrônico virou sensação nos últimos anos e é usado livremente em bares, festas e até mesmo dentro de escolas.

Durante uma reportagem exibida no Fantástico, o doutor Drauzio Varella mostra que essa “moda” é, na verdade, uma armadilha. O médico também explica o que está sendo feito para combater aquilo que especialistas já classificam como uma “epidemia de nicotina entre jovens”.

“Os cigarros eletrônicos, nada mais são do que dispositivos para administrar nicotina, a droga que provoca a dependência química mais escravizadora. Eu sei, porque senti no corpo. Eu fumei dos 17 aos 36 anos. Todo o esforço que nós fizemos para reduzir o número de fumantes será perdido. Estamos criando uma legião de dependentes de nicotina e de fumantes passivos, que ficarão com os pulmões doentes, agredidos pela fumaça dos que fumam os eletrônicos”, afirma Drauzio Varella.

O que são?

Cigarros eletrônicos, vaporizadores, vapes, os nomes do aparelho podem variar em função de detalhes, como por exemplo, quanto soltam de aerossol ou se são mais ou menos potentes. Os dispositivos mais comuns são recarregáveis, menores e mais conhecidos como pods. Todos eles são dispositivos eletrônicos para fumar e podem conter nicotina.

“A nicotina líquida é aquecida dentro desse dispositivo e ao dar uma tragada, forma-se um vapor. Só que para formar esse vapor, é necessário que se insiram substâncias que não existem no cigarro tradicional. O usuário de cigarro eletrônico aumenta em 42% a chance de ter um infarto. O adolescente que usa cigarro eletrônico, ele aumenta em 50% a chance de ter uma asma”, afirma Stella Martins, pneumologista do InCor.

De acordo com a especialista, em média, um cigarro comum oferece cerca de 15 tragadas. Sendo assim, um maço teria, então, 300 tragadas. Logo, um vaporizador de 1,5 mil tragadas seria o equivalente a cinco maços de cigarros comuns. Mas, a comparação não é tão simples, porque um cigarro comum, no Brasil, possui no máximo um miligrama de nicotina. Isso é regulamentado pela Anvisa. Já os diversos tipos de pod, como passam por uma fiscalização, podem entregar muito mais nicotina.

Além disso, o que tem dentro de um cigarro eletrônico não é só aroma, ácido e nicotina.

“Tem a nicotina, mas um estudo recente, que eu fiquei assustada quando eu li, eles descobriram em algumas marcas que foram pegas aleatoriamente nos Estados Unidos, no mercado, e foram estudar. Eles descobriram que tinha remédio para pressão alta, remédio para controlar batimento cardíaco, remédio para quem tem epilepsia, quem tem convulsão, tinha antibiótico… Então, eu posso dizer para você que a gente ainda não sabe o que tem lá dentro. E aí, assim, remédio é feito para você tomar via oral. Alguns pela veia”, explica Stella Martins.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Pelotas mostrou que quase 20% dos adultos entre 18 e 24 anos já experimentaram cigarro eletrônico. Esse número é quase três vezes a taxa da população em geral. A pesquisa não ouviu o público menor de idade.

“A indústria não tem muito interesse nos velhos fumantes. Eles já estão viciados, eles já fizeram as suas doenças, eles não querem saber disso, não querem falar sobre isso. Então, eles querem é que o público jovem comece a usar”, afirma Ana Menezes, epidemiologista e pesquisadora da UFPel.

Desde o ano de 2009, a Anvisa proíbe a comercialização, a importação ou a propaganda de cigarros eletrônicos. Mas a decisão voltou a ser analisada. Atualmente, existem 19 projetos de lei sobre cigarros eletrônicos em análise no Congresso Nacional.

É muito fácil comprar os vapes e pods. Diante de tamanha facilidade, a Polícia Federal tem realizado operações de repressão ao contrabando de cigarros eletrônicos. Nos últimos 15 dias, a PF realizou uma apreensão em São Paulo e outra em Brasília.

Sobre a comercialização do dispositivo eletrônico no Brasil, as representantes disseram:

Em nota, a Philip Morris Brasil afirma que apoia um modelo regulatório que combata as vendas clandestinas dos cigarros eletrônicos.

Também através de nota, a Japan Tobacco International diz que é favorável à liberação da venda de dispositivos eletrônicos, pois, a regulamentação vigente não está se mostrando efetiva.

Já a British American Tobacco Brasil preferiu se manifestar por uma porta-voz: “A regra traz segurança para o consumidor que busca o cigarro eletrônico que obedece a aquele critério sanitário. E ele permite, inclusive, que você oriente, que você informe, que você eduque essa geração e que esses dispositivos têm risco. Um risco reduzido, mas não são produtos isentos de risco”. (Portal Debate, com Fantástico/TV Globo)

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