DA REDAÇÃO — Os consumidores de açaí em Marabá, sudeste do Pará, têm notado um aumento expressivo no preço do produto nas últimas semanas, apesar do período de safra, que ocorre anualmente entre agosto e novembro. A reportagem do Portal Debate apurou que, em alguns estabelecimentos da cidade, o litro do açaí mais fino, com maior concentração de água, ainda pode ser adquirido por R$ 10, mas a qualidade é inferior. Já o açaí mais grosso, considerado de melhor qualidade, varia entre R$ 13 e R$ 15 por litro. Este fenômeno de elevação nos preços estaria diretamente associado ao crescimento das exportações do fruto típico da Região Amazônica.
Segundo informações obtidas pelo Portal Debate, uma das principais causas desse aumento de preço seria a abertura de novas indústrias de açaí no Pará, totalizando 11 novas unidades apenas este ano. Essas indústrias, segundo uma fonte que preferiu não se identificar, estariam focadas principalmente no mercado externo. O produto estaria sendo embalado com rótulos em inglês e chinês, indicando que o destino do açaí produzido no Pará é prioritariamente voltado para exportação, deixando o mercado interno, especialmente o paraense, com menor oferta e preços elevados.
Historicamente extrativista e conhecido como “pão dos pobres”, o açaí tem se tornado matéria-prima para produtos como sorvetes, sobremesas e itens de linha fit, modificando o consumo tanto na região amazônica quanto no Brasil e no mundo. O fruto está reproduzindo padrões de outros alimentos que se transformaram em commodity, com sua produção sendo cada vez mais integrada a mercados globais, mesmo que a cadeia de produção ainda envolva comunidades ribeirinhas locais.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a produção de açaí no Brasil aumentou significativamente nas últimas décadas. Em 2000, o país produziu 121.800 toneladas do fruto, número que subiu para 215.609 toneladas em 2016, um crescimento atribuído ao aumento do consumo tanto no mercado nacional quanto no internacional. Atualmente, o Pará é responsável por 95% da produção nacional de açaí, cultivado em cerca de 212 mil hectares em áreas de terra firme e várzea.

A Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) indica que entre 2015 e 2020, a produção média de açaí no Brasil foi de 1,5 milhão de toneladas por ano, atingindo 1,7 milhões de toneladas em 2020. Com o reconhecimento mundial das propriedades energéticas e vitamínicas do açaí, a demanda pelo fruto aumentou, resultando em um crescimento médio de 13% ao ano nas exportações, conforme o plano estratégico Pará 2030.
Os dados mais recentes do IBGE, de 2022, apontam que das 1.699.588 toneladas de açaí produzidas no Brasil, 1.595.455 toneladas foram produzidas no Pará, com destaque para os municípios de Igarapé-Miri, Cametá e Abaetetuba. No ano de 2023, o Pará exportou 8,2 mil toneladas de açaí, gerando uma receita de US$ 27,74 milhões. No primeiro quadrimestre de 2024, o volume exportado foi de 4,2 mil toneladas, representando um crescimento de 86,92% em comparação ao mesmo período do ano anterior, com valor de exportação de US$ 15,84 milhões.
A reportagem investigou que empresas internacionais estariam se instalando no Pará, adotando práticas de mercado predatórias, comprando o fruto em diversas regiões do estado, inclusive em Marabá, a preços considerados abusivos por produtores e comerciantes locais.
Apesar disso, Marabá não estaria recebendo grandes investimentos dessas indústrias, devido à pouca expressão da cultura do açaí na cidade. A fonte consultada pelo Portal Debate alerta que, no futuro, o paraense poderá ter dificuldades em consumir o açaí a preços acessíveis, devido à escassez do fruto no mercado interno, uma vez que a produção está sendo absorvida pelo mercado externo.
Além disso, a fonte informou que as indústrias, especialmente as controladas por grupos internacionais, estão trabalhando exclusivamente com açaí nativo, que já possui certificação orgânica. A certificação de produtos orgânicos é um procedimento realizado por certificadoras credenciadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), garantindo que o produto atende às normas e práticas da produção orgânica. (Portal Debate)


