Acordo Mercosul-União Europeia amplia exportações e exige adequação no Pará

A medida prevê a liberalização parcial ou total de aproximadamente 99% do valor das exportações agrícolas brasileiras.

O acordo Mercosul-União Europeia abre oportunidades para ampliar as exportações do Pará ao facilitar o acesso a um mercado com mais de 450 milhões de consumidores. A medida prevê a liberalização parcial ou total de aproximadamente 99% do valor das exportações agrícolas brasileiras. A abertura ocorrerá de forma gradual e por meio de quotas de importação.

A aproximação entre os dois blocos comerciais tende a ampliar a competitividade dos produtos paraenses no exterior. Com a redução gradual das tarifas de importação, a expectativa é de aumento do interesse de compradores estrangeiros e de novos investimentos em agroindústrias, centros de distribuição, sistemas de rastreabilidade e cadeias de frio no estado.

A especialista em mercado internacional Lucélia Guedes destaca que o tratado traz maior previsibilidade para os negócios no estado. “O acordo melhora as condições de acesso das empresas brasileiras ao mercado europeu. Diversos produtos passam a ter redução ou eliminação gradual das tarifas de importação, tornando o produto brasileiro mais competitivo em preço”, afirma Lucélia Guedes.

Oportunidades para a bioeconomia e industrialização local

O tratado também cria condições para reduzir a dependência da mineração na pauta exportadora do Pará. O avanço da economia estadual depende do incentivo ao processamento local de alimentos, bebidas, biocosméticos e produtos florestais. Os setores com maior potencial incluem açaí, cacau, chocolates, castanha-do-pará, pimenta-do-reino, mel e óleos vegetais.

Para consolidar os ganhos econômicos na Região Norte, as empresas locais precisam focar na agregação de valor e no desenvolvimento de marcas próprias. É necessário transformar a matéria-prima em produtos acabados, com embalagem e certificação internacional.

“Não basta exportar cacau em amêndoas. Precisamos ampliar a produção de chocolates, derivados e ingredientes especiais. Da mesma forma, não basta vender frutas ou matérias-primas amazônicas. É necessário desenvolver polpas, sorbets, bebidas, óleos, extratos e cosméticos”, declara Lucélia Guedes.

Exigências sanitárias e ambientais desafiam produtores

Apesar da redução de tarifas, a entrada no mercado europeu exige o cumprimento de rígidas normas sanitárias e técnicas. Outro obstáculo é o Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento. A norma atingirá cadeias como gado, cacau, soja, madeira, borracha e óleo de palma.

As regras ambientais entram em vigor em 30 de dezembro de 2026 para operadores de médio e grande porte. Para micro e pequenas empresas, o prazo se estende até 30 de junho de 2027. Os primeiros efeitos práticos do acordo devem surgir entre 2026 e 2027, com impacto mais visível no volume exportado em um prazo de dois a cinco anos.

“A empresa que esperar todos os efeitos aparecerem para começar a se organizar provavelmente chegará atrasada. Quem iniciar desde já a adequação de documentos, produtos, processos, certificações, rastreabilidade e estratégia comercial terá mais condições de aproveitar as oportunidades”, alerta Lucélia Guedes.

Pecuária paraense lidera vendas e cobra logística

Na pecuária, os produtores paraenses mantêm forte presença no comércio internacional. Dados do Observatório do Agro Paraense, da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), mostram que a bovinocultura respondeu por 39,75% do valor das exportações do agronegócio estadual. O setor movimentou US$ 1,12 bilhão, crescimento de 36,4%, além do embarque de 363.932 bovinos vivos.

Para o diretor técnico da Faepa, Guilherme Minssen, o acordo pode ampliar a competitividade dos produtos paraenses, mas o avanço das exportações dependerá de investimentos em infraestrutura logística.

“As frutas tropicais paraenses, via açaí, abacaxi e os óleos vegetais estão entre os nossos principais beneficiários. A carne bovina paraense é a mais barata no cenário nacional. Os maiores investimentos precisam ser realizados na logística das entradas e principalmente nos portos de embarque”, ressalta Guilherme Minssen.

A reportagem também procurou a Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) para comentar os impactos do acordo para o setor industrial, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

Indicadores do comércio externo e exigências do mercado

  • Abertura do mercado agrícola europeu: 99% do valor exportado pelo Brasil
  • Alcance do mercado consumidor: mais de 450 milhões de pessoas
  • Cronogramas de eliminação de tarifas: prazos imediatos, quatro, sete, oito, 10 e 12 anos

Bovinocultura no Pará (dados do Sistema Faepa)

  • Valor exportado: US$ 1,12 bilhão
  • Crescimento em valor: 36,4%
  • Participação no agronegócio estadual: 39,75%
  • Bovinos vivos exportados: 363.932 cabeças

Prazos do regulamento europeu sobre produtos livres de desmatamento

  • Médios e grandes operadores: 30 de dezembro de 2026
  • Micro e pequenos operadores: 30 de junho de 2027 (Com Oliberal)

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