Fonteles, Camilo e Helder entram no tabuleiro do governo Lula 4

Governador do Piauí é cotado para a Fazenda, senador cearense para a Casa Civil e paraense para Cidades, em plano que mira 2030

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25) com 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), e assume o quarto mandato em 5 de janeiro de 2027 diante de um Congresso em que a direita conquistou as maiores bancadas das duas casas legislativas. O quadro levou a revista britânica The Economist a alertar, nesta segunda-feira (26), que o petista corre o risco de se transformar em um “pato manco” desde o primeiro dia de governo, expressão que designa o político que permanece no mandato, mas enfraquecido e sem capacidade de implementar suas medidas.

A análise da revista, reproduzida por veículos brasileiros, atribui o diagnóstico à composição do Parlamento eleito em 4 de outubro. O PL elegeu 121 deputados federais, maior bancada de um único partido desde a Constituição de 1988, e 28 senadores, contra 88 deputados da federação PT-PCdoB-PV e 87 da federação União-PP na Câmara. No Senado, o PT mantém nove cadeiras, o MDB cai para oito e o PSD despenca de 13 para cinco. Levantamento do DIAP aponta que a bancada de direita no Senado saltou de 32 para 48 senadores.

” A direita — incluindo a esposa, o irmão e dois outros filhos de Jair [Bolsonaro], eleitos para o Congresso — compõe, agora, a maior bancada em ambas as casas legislativas. Isso tornará difícil para Lula governar, especialmente porque, devido a limitações constitucionais (e à sua idade), ele não poderá concorrer novamente. Ele corre o risco de se tornar um ‘pato manco’ logo no primeiro dia [do seu quarto mandato] “, afirmou a Economist.

O antídoto contra o prognóstico da revista Economist

A avaliação é compartilhada nos bastidores do próprio governo. Lula precisa armar uma blindagem ao seu redor para não se converter em “pato manco”, e que a engenharia de ocupação de cargos está longe de ser concluída, sem prazo para anúncio.

Antes dos ministérios, o presidente deve indicar o primeiro dos quatro ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) a que terá direito até 2030, o que, segundo levantamentos publicados nesta segunda-feira, lhe permitirá chegar ao fim do mandato com até sete dos 11 ministros da Corte escolhidos por ele.

A linha de frente dos primeiros rascunhos

Exaltados por Lula nos discursos da vitória e em mensagens pessoais, três nomes compõem o núcleo inicial da nova equipe. Entre caciques petistas, o governador do Piauí, Rafael Fonteles, é citado como forte candidato ao Ministério da Fazenda. O senador Camilo Santana (PT-CE) ganhou força, após a reeleição, para a Casa Civil. O senador eleito Helder Barbalho (MDB) aparece cotado para o Ministério das Cidades, pasta ocupada no governo anterior pelo irmão, Jader Filho, eleito deputado federal pelo MDB paraense com 326.617 votos.

A nomeação de Camilo e Fonteles para pastas estratégicas integra, segundo dirigentes petistas, um plano para projetar os dois nacionalmente com vistas à sucessão de 2030.

O movimento de Helder tem outra direção, o retorno ao governo do Pará, enquanto o pai, o senador Jader Barbalho (MDB), assume como primeiro suplente a vaga aberta no Senado, o que fecharia integralmente a bancada paraense em apoio a Lula. O senador Beto Faro (PT), com mandato até 2031, e Chicão (União Brasil), eleito com 22,43% dos votos, completam a representação do estado.

O caso de Fonteles exige a engenharia política mais delicada. Para assumir a Fazenda, o governador teria de renunciar ao mandato recém-conquistado, uma vez que foi reeleito em primeiro turno com 70,90% dos votos válidos.

Aliados apostam que ele não ofereceria resistência, e sustentam que o vice-governador eleito, Washington Bandeira, tem total confiança do governador, amigo de escola. Antes de chegar ao Palácio de Karnak, Fonteles foi secretário estadual da Fazenda, é formado em matemática e transita com desenvoltura em parte do mercado financeiro, que o enxerga como um petista mais moderado.

O recado econômico da Economist

A revista inglesa concentrou as advertências no terreno econômico e sustentou que os desafios foram em grande parte gerados pelo próprio governo. ” Sua prioridade será recuperar a precária economia brasileira. Em decorrência de suas próprias políticas de gastos excessivos, o Banco Central elevou os juros reais a patamares vertiginosos. A relação dívida pública/PIB cresceu mais de dez pontos percentuais durante os últimos quatro anos de Lula no poder “, registrou.

A publicação acrescentou que, em vez de nomear um correligionário para a Fazenda, o presidente precisará escolher um nome de peso e apresentar um plano crível de redução de gastos para acalmar os mercados, e que as medidas de distribuição de recursos anunciadas antes da eleição sugerem o contrário. Um estelionato eleitora? Sim, mas, Lula está acostumado com críticas e xingamentos de seus detratores.

Dados oficiais confirmam o diagnóstico fiscal. A dívida bruta do governo geral atingiu R$ 11,1 trilhões em agosto, equivalentes a 82,9% do PIB, maior nível desde março de 2021, e os juros nominais somaram R$ 1,182 trilhão em 12 meses, ou 8,86% do PIB, contra déficit primário de R$ 82,1 bilhões no período. A Selic está em 13,75%, com inflação de 4,58%, o que projeta juro real próximo de 9% ao ano.

Cargos como Educação e Previdência são tratados internamente como cruciais para qualquer chance de sucesso da nova gestão, e o Banco Central aparece como a “pedra no sapato” do petista.

O governo prepara uma proposta de emenda à Constituição para perseguir o centro da meta fiscal e prevê menos crédito subsidiado, além de considerar a permanência do atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, na função.

A conta das promessas

A vitória eleitoral reabriu a fatura das promessas feitas em menos de três semanas entre o primeiro e o segundo turno, quando a campanha virou disputa por oferta de benefícios, com imposto zerado, subsídio a combustível, perdão de dívida, ressuscitação de benefício tributário e sinalização de mudança em reforma em curso. O desafio é acomodar as medidas no Orçamento sem ampliar a carga tributária, em meio à pressão por cortes de despesas e ao início da reforma tributária em janeiro de 2027.

“Quem vai pagar a conta de tudo que foi prometido nas últimas três semanas?”, é a pergunta de um milhão de dólares, mas cumprir vai custar dinheiro. E existe uma possibilidade bastante desagradável dela terminar no seu bolso.

Desde 2023, a gestão adotou mais de 30 medidas de aumento de arrecadação, entre elas a tributação de offshores e fundos exclusivos, a reoneração da folha e o aumento do IOF. Levantamento aponta que as iniciativas do ano eleitoral somam R$ 350 bilhões em impacto fiscal, incluindo R$ 31,8 bilhões apenas com a ampliação da isenção do Imposto de Renda até R$ 7 mil mensais. No Orçamento de 2027, dos R$ 2,8 trilhões em despesas primárias, cerca de 90% estão comprometidos com gastos obrigatórios.

No campo tributário, há pendências que pressionam o calendário. As empresas ainda não conhecem a alíquota da CBS, que substituirá PIS e Cofins, e o atraso na regulamentação do Imposto Seletivo pode provocar perda de quase R$ 4 bilhões no orçamento de 2027. Entre as alternativas em discussão estão uma PEC para manter o IPI sobre determinados produtos, inclusive para cobrir um rombo estimado em R$ 3,8 bilhões já em janeiro, e a possibilidade de alterar prazos da transição.

Dois turnos, uma virada inédita

A eleição presidencial de 2026 produziu um resultado sem precedentes na história das disputas diretas brasileiras. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% contra 45,16% de Lula, e foi superado no segundo, numa reviravolta que nenhum candidato havia protagonizado entre as duas etapas. A abstenção caiu de 21,08% para 19,21%, a menor em segundos turnos desde 2018, e os votos brancos e nulos somaram 3,24%. O petista virou o placar em 211 cidades, incluindo Minas Gerais, único estado onde houve inversão, e obteve a maior votação da história para presidente.

No pronunciamento após a confirmação do TSE, às 21h08, Lula prometeu mudar a forma de governar, ampliar a participação popular nas decisões e regulamentar as plataformas digitais, e classificou o resultado como derrota do negacionismo. “Eu não escolhi o Congresso; foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou trabalhar”, declarou. Flávio Bolsonaro, no entanto, não reconheceu o resultado e afirmou que irá contestá-lo, o que adiciona um elemento de instabilidade ao início do novo mandato.

Entre a blindagem ministerial e o risco de paralisia

A equipe em gestação revela a estratégia central do novo governo. Ao posicionar quadros com trânsito no mercado, como Fonteles, em uma pasta econômica, e ao distribuir nomes capazes de projetar a sucessão de 2030, Lula tenta converter fragilidade parlamentar em articulação política, ao mesmo tempo em que busca no STF o contrapeso institucional para um Congresso dominado pela oposição.

O cálculo, porém, depende de variáveis que não controla, entre elas a resistência do mercado à nomeação de um petista para a Fazenda, a capacidade de aprovar a PEC do IPI e a definição de um plano de ajuste que convença investidores sem romper compromissos de campanha.

O risco apontado pela Economist não está na eventualidade de Lula perder poder formal, e sim na possibilidade de que o custo político de governar com uma base parlamentar minoritária inviabilize as decisões econômicas urgentes, cenário em que o “pato manco” deixa de ser metáfora jornalística e se converte em paralisia administrativa. (Val-André Mutran/Ver-o-Fato)

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