O Setembro Amarelo, campanha dedicada à conscientização e valorização da vida, reforça, ao longo de todo o mês, a importância de falar sobre saúde mental, reconhecer sinais de sofrimento e buscar ajuda profissional. Mais do que chamar atenção para o tema, a iniciativa também procura reduzir o estigma que ainda impede muitas pessoas de procurar atendimento.
Segundo o médico psiquiatra Dirceu Rigoni, algumas mudanças no comportamento e na rotina podem indicar que uma pessoa está enfrentando um período de sofrimento psíquico intenso. Entre os sinais estão o isolamento, a perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer, queda no rendimento escolar ou profissional, irritabilidade, alterações no sono e no apetite, choro frequente e desmotivação.
“Geralmente quando a pessoa está mais isolada que o de costume, quando para de fazer atividades que gostava, quando seu rendimento escolar ou no trabalho caem sem explicação, quando está mais irritada que de costume”, explica o especialista.
As alterações podem aparecer de diferentes formas e nem sempre são percebidas imediatamente. Segundo Rigoni, familiares e pessoas próximas também devem ficar atentos a comportamentos como não querer sair de casa ou do quarto, dormir demais, mudanças significativas no apetite, agressividade, faltas ao trabalho ou à escola e até mesmo o abandono de hábitos básicos de higiene pessoal.
Acolhimento sem julgamentos
Diante desses sinais, a forma como familiares e amigos se aproximam da pessoa pode fazer diferença. Para o psiquiatra, o primeiro passo é demonstrar empatia e evitar julgamentos. “O principal é agir com empatia e não julgar o indivíduo, não achar que é uma escolha do indivíduo e sim um possível adoecimento”, afirma.
A orientação é abordar o assunto de maneira gradual, demonstrando que mudanças foram percebidas e sugerindo a busca por ajuda profissional. A ideia é oferecer apoio sem pressionar ou culpabilizar quem está passando por um momento de vulnerabilidade.
O especialista também destaca a importância de ampliar o debate sobre saúde mental para combater o preconceito. Historicamente, transtornos e tratamentos psiquiátricos foram cercados por estigmas, o que pode fazer com que pessoas deixem de procurar atendimento por vergonha ou medo do julgamento. “Quanto menor este estigma e mais naturalizado for buscar ajuda, melhor a chance do paciente prevenir e tratar seus problemas de saúde mental”, ressalta.
Quando procurar ajuda?
De acordo com Dirceu Rigoni, não é necessário esperar que o sofrimento se torne extremo para buscar atendimento. Na dúvida, procurar orientação profissional pode ser uma medida importante, principalmente quando existe sofrimento significativo ou prejuízo na rotina e nas atividades do indivíduo. “Na dúvida, sempre é melhor pecar pelo excesso. No entanto, os dois sinais mais clássicos são quando há sofrimento significativo para o indivíduo ou quando há prejuízos nas suas funções, isso já é motivo de buscar ajuda profissional”, orienta.
O acompanhamento pode envolver diferentes profissionais, de acordo com as necessidades de cada pessoa. Entre eles estão psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e psicopedagogos.
O psiquiatra atua na área médica, realizando a escuta, a avaliação clínica, a identificação de possíveis diagnósticos e, quando necessário, a prescrição de medicamentos.
Rede pública amplia ações no Pará
No Sistema Único de Saúde (SUS), pessoas que enfrentam sofrimento emocional podem procurar inicialmente os serviços da Atenção Primária à Saúde (APS), como as Unidades Básicas de Saúde, ou os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que oferecem acolhimento e acompanhamento especializado em saúde mental. Em situações de urgência e emergência, a orientação é buscar os serviços da rede de urgência e emergência.
No Pará, a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), por meio da Coordenação Estadual de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, terá uma programação especial durante o Setembro Amarelo, com ações voltadas para a valorização da vida e para o fortalecimento do cuidado em saúde mental.
Com o tema “Cuidar da vida é também cuidar das emoções”, a programação inclui uma palestra de atualização para profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial e equipes multiprofissionais (eMulti), com orientações sobre prevenção, identificação de situações de risco, acolhimento, manejo adequado, articulação da rede e estratégias de pós-venção, com o objetivo de oferecer acolhimento e acompanhamento e reduzir novos riscos.
Também está prevista uma programação interna para servidores da Sespa, com temas como autocuidado, saúde mental, redes de apoio e a importância de reconhecer quando é necessário buscar ajuda.
A campanha terá ainda mobilização da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com o compartilhamento de materiais educativos e orientações junto aos Centros Regionais de Saúde e aos 109 CAPS existentes no Estado, ampliando o alcance das ações nos municípios paraenses.
Segundo a Sespa, os materiais produzidos para a campanha também vão orientar a população sobre os caminhos disponíveis para acolhimento e cuidado. A secretaria destaca que os diferentes pontos da rede atuam de forma articulada para garantir o atendimento conforme a necessidade de cada pessoa.
A programação, de acordo com a secretaria, busca fortalecer uma cultura de cuidado, escuta, acolhimento e valorização da vida, além de qualificar os profissionais que integram a RAPS. A proposta também é reforçar que o cuidado com a saúde mental deve ocorrer de forma contínua, para além do período da campanha.
Prevenção durante todo o ano
Dados do Ministério da Saúde mostram que o suicídio continua sendo um problema de saúde pública no Brasil. A taxa média nacional gira em torno de 6,6 mortes por 100 mil habitantes, com milhares de óbitos registrados anualmente. Adultos jovens concentram parte das ocorrências, enquanto o suicídio também figura entre as principais causas de morte de adolescentes e jovens.
Para Dirceu Rigoni, o Setembro Amarelo tem justamente o papel de ampliar a conscientização sobre a saúde mental e incentivar a prevenção. “A campanha nacional foi criada pela Associação Brasileira de Psiquiatria no intuito de alertar sobre a importância da saúde mental e com o principal objetivo de prevenção, que é um dos piores desfechos dentro de nossa especialidade”, explica.


