Localizada na foz do Rio Amazonas, no norte do Brasil, a Ilha de Marajó é a maior ilha fluvial do mundo. Abrangendo cerca de 40.000 quilômetros quadrados, essa rica paisagem é um mosaico dinâmico de biodiversidade, onde a terra, os rios e o mar se transformam constantemente.
A ilha também abriga a Reserva Extrativista Marinha Soure (RESEX Soure), a primeira área protegida do Brasil a figurar na Lista Verde da UICN. Criada em 2001 após forte mobilização das comunidades locais de pescadores e coletores de caranguejos, a RESEX Soure protege 300 km² de manguezais, águas estuarinas e planícies de maré.
A reserva é gerida em conjunto pelas comunidades pesqueiras locais e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Seu objetivo é proteger o ecossistema de mangue, garantindo a sustentabilidade dos meios de subsistência tradicionais, especialmente a pesca artesanal e a captura de caranguejos.
Hoje, porém, o equilíbrio do ecossistema está ameaçado. As mudanças climáticas estão alterando a dinâmica costeira e ameaçando os ecossistemas de mangue, enquanto a sobrepesca e a pesca ilegal — frequentemente realizadas por pessoas de fora usando métodos insustentáveis — exercem pressão adicional sobre as populações de caranguejos e os meios de subsistência de mais de 1.600 famílias.
A tecnologia encontra a tradição
A inclusão da Reserva Natural de Soure (Sour RESEX) como um projeto emblemático da Huawei-UICN Tech4Nature reflete não apenas sua importância ecológica, mas também a força de sua governança comunitária. Combinando ferramentas digitais com conhecimento tradicional e lançado em 2024, o projeto visa aprimorar a proteção desse ecossistema único, mensurando o impacto das mudanças climáticas no manguezal.
A Universidade Federal do Pará (UFPA), parceira do projeto Tech4Nature Brasil, desenvolveu um sistema inovador de sensores ambientais de baixo custo, adaptado às condições extremas dos ecossistemas de mangue. Os equipamentos comerciais disponíveis no mercado global são proibitivamente caros e inadequados para implantação em larga escala em áreas tão vastas quanto a Reserva Natural Soure RESEX, que abrange quase 300 km².
O monitoramento das mudanças climáticas em manguezais apresenta dificuldades singulares:
● Barreiras logísticas: As densas raízes dos manguezais e os bancos de lama entre marés são extremamente instáveis e acessíveis apenas durante breves períodos de maré baixa;
● Estresse ambiental: O ar úmido e salgado é altamente corrosivo para dispositivos eletrônicos e degrada rapidamente os equipamentos convencionais;
● Cobertura em larga escala: A vasta extensão da RESEX torna economicamente inviável depender de dispositivos de monitoramento importados e dispendiosos para uso a longo prazo, considerando os custos de manutenção e substituição.
Monitoramento Inteligente
Os dispositivos projetados pela UFPA integram sensores ambientais capazes de medir variáveis importantes, incluindo salinidade, temperatura e nível da água; temperatura do ar e pressão atmosférica; intensidade e direção do vento; e precipitação.
Os sensores, projetados para suportar condições úmidas, corrosivas e lamacentas, coletam dados automaticamente e os transmitem por meio de chips de rede celular, criando um fluxo de informações ambientais quase em tempo real.
Em comparação com soluções comerciais semelhantes, o protótipo testado antes da implementação demonstrou ser até 70% mais econômico, mantendo alta precisão e exatidão.
Os dados são contínuos, e não sazonais, permitindo que cientistas e formuladores de políticas acompanhem as mudanças ambientais de longo prazo no ecossistema de mangue, antecipem os impactos das mudanças climáticas e orientem as políticas públicas.
Captura sustentável de caranguejos
Além de analisar como as mudanças climáticas afetam o ecossistema de mangue a longo prazo, o monitoramento das populações de caranguejos-do-mangue fornece informações sobre os fatores, incluindo as condições climáticas e as práticas de pesca, que afetam seus números populacionais ao longo do tempo. Os caranguejos-do-mangue são um recurso fundamental e ecologicamente crucial para o bem-estar dos ecossistemas de mangue.
A sobrepesca de caranguejos jovens e de tamanho insuficiente, que ainda não se reproduziram, pode causar o declínio das populações, afetar o equilíbrio do ecossistema ao reduzir a ciclagem de nutrientes e a renovação de sedimentos, além de impactar os meios de subsistência locais ao reduzir os estoques disponíveis a longo prazo.
Trabalhar em estreita colaboração com a comunidade pesqueira local e medir o tamanho dos caranguejos capturados são métodos essenciais para estabelecer a sustentabilidade das práticas de pesca atuais.
Mais de 3.200 entrevistas com pescadores locais realizadas entre 2025 e 2026 – o primeiro censo desse tipo realizado em Soure -, forneceram informações importantes sobre a sustentabilidade das práticas de pesca. Além disso, o monitoramento ecológico conduzido de acordo com os protocolos nacionais em nove áreas de amostragem no ecossistema de manguezal estabelece as bases para um monitoramento anual mais robusto.
Uma abordagem de parceria
Além da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e da Huawei, e com o apoio dos governos federal e estaduais, a parceria Tech4Nature reúne o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a RARE Brasil, a Universidade Federal do Pará (UFPA) e as associações locais ASSUREMAS e ACCS.
O projeto Tech4Nature Brasil busca gerar um impacto local tangível, fortalecendo a voz da comunidade, garantindo meios de subsistência e protegendo recursos, assegurando assim que o ecossistema de manguezal continue a sustentar as gerações futuras.
Com iformações de Tech4Nature Brasil


