Mais de um ano após o Ministério Público do Pará recomendar uma série de medidas urgentes para a regularização do Departamento Municipal de Trânsito Urbano (DMTU) de Jacundá, a realidade nas ruas mostra que praticamente nada saiu do papel. A omissão do poder público ocorre em um momento crítico, marcado pelo aumento expressivo dos acidentes e pela sensação crescente de desordem no trânsito da cidade. A recomendação ministerial, expedida em outubro de 2024, cobrava concurso público, reforço na fiscalização e criação de um setor próprio de sinalização.
Os números refletem a gravidade do cenário. Somente em 2025, Jacundá registrou 23 mortes em acidentes de trânsito, índice que ultrapassou com folga o número de homicídios no mesmo período. O dado expõe uma crise silenciosa, mas cada vez mais visível, em uma cidade onde motociclistas sem capacete, menores pilotando veículos e estacionamento irregular se tornaram parte da rotina.
Na recomendação, o Ministério Público apontou falhas estruturais graves no DMTU, entre elas o baixo número de agentes de trânsito, a inexistência de um setor específico de sinalização viária e deficiências no setor de fiscalização. Entre as providências cobradas estava a realização de novo concurso público para ampliar o efetivo, hoje considerado insuficiente para o tamanho da frota local. Atualmente, segundo relatos, apenas seis agentes atuam por dia, número visto como incapaz de atender a demanda de uma cidade em expansão.

A ausência do órgão nas ruas também chama atenção. Moradores relatam que os agentes raramente são vistos em pontos críticos da cidade e que, nos fins de semana e feriados, praticamente desaparecem. O resultado é um trânsito sem controle, onde infrações graves acontecem à luz do dia, sem qualquer sensação de fiscalização contínua.
Outro ponto que amplia as suspeitas é a interrupção no envio dos dados de acidentes pelo Hospital Municipal ao DMTU. Sem atualização oficial dos registros, o município perde capacidade de planejamento e prevenção, justamente em um momento em que os sinistros graves têm pressionado a rede pública de saúde. A falta de explicação para a suspensão dessas informações levanta questionamentos sobre falhas administrativas e possível omissão de dados estratégicos.
Nas principais avenidas de Jacundá, o retrato é de completo desalinho: motociclistas circulam sem capacete, adolescentes conduzem veículos livremente, caminhões estacionam em locais proibidos e vagas públicas são ocupadas de forma desordenada. Enquanto isso, a recomendação do Ministério Público segue sem resposta concreta, e a população continua pagando a conta de um trânsito marcado pelo improviso, pelo risco e pela ausência de autoridade pública. (Portal Debate)


