De comida popular a luxo: alta do açaí muda mesa do paraense

A realidade é impulsionada pela entressafra, fortes chuvas e dificuldade de acesso ao fruto, impactando desde os pontos de venda até restaurantes e pequenos consumidores

O preço do açaí tem registrado alta expressiva em Belém. A realidade é impulsionada pela entressafra, fortes chuvas e dificuldade de acesso ao fruto, impactando desde os pontos de venda até restaurantes e pequenos consumidores.

Com a oferta reduzida e a necessidade de transporte mais longo e oneroso, o produto chega mais caro e com qualidade inferior à capital, o que resulta em queda nas vendas, adaptação na produção e mudanças no consumo de um dos itens mais tradicionais da alimentação paraense.

De acordo com o presidente da Associação dos Vendedores Artesanais de Açaí de Belém e Região Metropolitana (Avabel), Carlos Alberto Noronha, a escassez do produto é um dos fatores que ocasionam a alta do produto nos pontos de venda de Belém devido a entressafra, marcada pelo fim da colheita.

Agora, os frutos que chegam à capital vêm de localidades distantes, como dos municípios de Afuá e Anajás, na Ilha do Marajó, além do estado vizinho Amapá.

De acordo com o presidente da Associação dos Vendedores Artesanais de Açaí de Belém e Região Metropolitana (Avabel), Carlos Alberto Noronha, a escassez do produto é um dos fatores que ocasionam a alta do produto nos pontos de venda de Belém devido a entressafra Foto: Celso Rodrigues/Diário do Pará.

Essa realidade requer que a fruta seja armazenada em gelo para ser transportada de dois a três dias pelos rios amazônicos, o que gera uma grande despesa. Com a mesma demanda pelo sumo da fruta e a baixa oferta do fruto, a bebida se torna artigo de luxopara os clientes de Belém, que também são os maiores consumidores de açaí entre as capitais da região Norte.

“Para nós, batedores de açaí, tem impacto na venda. A venda cai muito. A minha venda aqui caiu praticamente 40% porque o preço está muito em alta. Para o consumidor, o impacto é pagar um valor elevado no produto e não ter qualidade. O que a gente consegue tirar numa batida, na safra do açaí, é 16% a 18% de sólido. Hoje, no máximo, a gente consegue tirar de 11% a 12%. Isso impacta no consumidor que às vezes liga para a gente: “poxa Carlos, a aumentou de preço, mas está mais fino”. Isso é porque o fruto não tem qualidade para que a gente possa fazer um produto de qualidade para o cliente”, explica o presidente da Avabel.

Para balancear o custo do fruto, as despesas do ponto de venda e o lucro, o batedor tem que alterar a qualidade do produto. “Tem que afinar um pouco o açaí para poder suprir as nossas necessidades porque a gente tem despesa de energia, de funcionário. Antigamente, trabalhava eu e um atendente. Hoje, com a invenção do delivery, são mais dois entregadores na rua e isso gera despesa pra gente”, revela Carlos Noronha.

Até esta quarta-feira (08), no ponto de venda Açaí Mendara, situado no Conjunto Mendara, bairro da Marambaia, o litro do tipo médio estava a R$35 e R$50 do tipo grosso. Os preços sofreram leve recuo após um período de alta, quando o produto chegou a R$40 e R$60, respectivamente.

Segundo o presidente da Avabel, a estimativa é que a oferta do fruto melhore com a chegada do verão amazônico, no final de maio e início de junho.

“Daqui pra frente a expectativa é melhorar. A partir de maio, se Deus quiser, a coisa começa a melhorar. Já está começando a aparecer um açaí de produção aqui das ilhas, começa a vir açaí mais de perto e o fruto vai barateando e a gente vai melhorando aqui. Primeiro vai melhorar a qualidade do produto e depois vem a queda do preço”, disse Carlos.

Preço do açaí chega a R$ 80

Nos pontos de venda de açaí, o produto tem registrado altos preços no início de abril. No primeiro final de semana do mês, que coincidiu com a Páscoa, o litro da bebida do tipo médio chegou a R$44, enquanto o tipo grosso bateu os R$50, no box Açaí da Lays, localizado na Feira da 25.

Por outro lado, nos aplicativos de entrega, o litro do fruto chegou aR$80. A realidade refletia o valor de comercialização do fruto aos batedores que, nesse mesmo final de semana, era encontrado a R$260 a lata, proveniente das ilhas de Belém.

Nesta quarta-feira (08), a fruta registrou um leve recuo, sendo vendida a R$36 o tipo médio e R$46 do tipo grosso. A diferença de R$4 foi consequência da negociação com o fornecedor, além da diminuição do preço da lata, que baixou para R$130.

A nível de comparação, em março, o litro do açaí médio era vendido a R$30, enquanto o grosso estava a R$36, um acréscimo de mais de 46% em um valor já considerado alto.

Segundo Lays, a alta dos preços ainda é explicada pelo período de entressafra, caracterizada pelo excesso de chuva e a dificuldade de acesso ao fruto, advindo, principalmente, dos municípios de Abaetetuba e Muaná, na Ilha do Marajó. Nesta época do ano, a lata do açaí “do bom” rende seis litros da bebida, enquanto o “ruim” rende apenas quatro. Em ambos os casos a qualidade é inferior ao período da safra. A diferença é alarmante: durante a boa colheita, com ampla oferta do fruto na capital paraense, a lata é comercializada a cerca de R$60, o que diminui o valor da bebida ao consumidor.

Segundo Lays, a alta dos preços ainda é explicada pelo período de entressafra, caracterizada pelo excesso de chuva e a dificuldade de acesso ao fruto, advindo, principalmente, dos municípios de Abaetetuba e Muaná, na Ilha do Marajó Foto: Celso Rodrigues/Diário do Pará.

“O que é pior é que no período da entressafra a gente compra o produto para trabalhar, acreditando que vai ganhar uma diária do trabalho. O que acontece é que o açaí não te dá produtividade e a gente não consegue tirar nem o valor investido. Esse é o problema, muita gente nessa fica endividada nessa época. Acredito que muita gente ficou esse ano sem manter a tradição do peixe frito com açaí na Sexta-Feira Santa pelo preço elevado. Eu mesmo recebo reclamação todo dia sobre o preço aqui”, relatou a batedora de açaí.

Impacto nos restaurantes

O valor elevado do açaí tem impactado no elo final da cadeia produtiva, na etapa de varejo e comercialização ao consumidor. Esse é o caso do restaurante regional Casa de Elna, localizado na avenida Nazaré, que tem sentido o peso da alta diariamente, principalmente por oferecer rodízio dos pratos típicos. Com o açaí sendo um dos atrativos do menu, a gerente Joise Estumano, de 41 anos, revela que o estabelecimento não consegue repassar as alterações de preço aos clientes da mesma forma que os pontos de venda do açaí o fazem.

“A gente não consegue aumentar para o cliente porque temos o valor fixo em nosso cardápio. Sentimos muito essa alta porque a gente não consegue fazer essa alteração diariamente dependendo do valor que a gente compra o litro do açaí, não podemos mudar o valor todo dia. Então, temos que nos adaptar para manter a nossa produção e o nosso atendimento. O que mais oscila para o restaurante é o valor do açaí, que fica muito alto nessa época do ano, principalmente porque a gente trabalha com rodízio”, revela a gerente.

Com o açaí sendo um dos atrativos do menu, a gerente Joise Estumano, de 41 anos, revela que o estabelecimento não consegue repassar as alterações de preço aos clientes Foto: Celso Rodrigues/Diário do Pará.

Na safra, o restaurante costuma trabalhar com 15 a 20 litros do açaí por dia, enquanto na entressafra são adquiridos apenas de 5 a 8 litros diariamente. Para lidar com os preços cada vez mais altos, o negócio retirou alguns produtos do rodízio para manter o açaí.

“Tivemos que tirar o charque para lidar com o valor alto do açaí sem perder o lucro. Mas esse preço diminuiu muito a nossa renda porque ficamos nessa oscilação todo dia”, finaliza Joise. (Com Diário do Pará)

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