Comissão da Verdade pretende retomar buscas por restos mortais de vítimas da ditadura militar

O plano de trabalho, que será votado nesta quinta-feira (15) em Brasília, inclui visitas a cemitérios em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Pará e Tocantins, com foco na identificação de ossadas de combatentes da Guerrilha do Araguaia

DA REDAÇÃO — A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos planeja realizar diligências em cinco estados para buscar restos mortais de vítimas da ditadura militar. O plano de trabalho, que será votado nesta quinta-feira (15) em Brasília, inclui visitas a cemitérios em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Pará e Tocantins, com foco na identificação de ossadas de combatentes da Guerrilha do Araguaia, especialmente nos últimos dois estados. Marabá, um dos principais pontos de atuação dos guerrilheiros na década de 1970, está entre os locais prioritários.

O plano prevê também a retomada de exames genéticos para identificação de ossadas encontradas em uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, em Perus, São Paulo. Conforme o relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), 243 pessoas desapareceram de forma forçada durante o período da ditadura, o que corresponde a mais de metade das 434 vítimas reconhecidas oficialmente. As primeiras escavações começaram nos anos 1980, mas dificuldades técnicas e financeiras limitaram o processo de identificação, e até agora, cerca de 20 restos mortais foram entregues às famílias.

Após ter sido extinta no governo anterior, a Comissão foi recriada em julho deste ano por decreto presidencial e, após reorganização, deve retomar as investigações nas próximas semanas. Nas décadas de 1990 e 2000, a CNV realizou escavações em Marabá e colheu depoimentos de pessoas ligadas à ditadura militar na região, incluindo visitas a cemitérios como o da Saudade (Nova Marabá) e São Miguel.

Entre os locais de relevância histórica está a “Casa Azul”, situada na Rodovia Transamazônica, em frente ao Fórum de Marabá. Na década de 1970, a Casa Azul serviu como um centro clandestino de tortura e morte de guerrilheiros e camponeses, funcionando também como fachada do extinto Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), atual Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).

O local, com várias pequenas construções, inclui uma casa específica apontada por sobreviventes como local de tortura. Em 2014, durante uma diligência da CNV, o portão foi aberto à força para entrada. Entre os participantes da visita, estava Raimundo de Sousa Cruz, conhecido como Barbadinho, que havia sido torturado no local. Barbadinho, de 84 anos, relatou os episódios vividos no local: “Eu levei choque demais ali. Eles perguntavam se eu conhecia alguém, eu dizia: ‘Conheci sim’. Aí eu contei a história de 6h da manhã até 23h30 da noite.” (Portal Debate)

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