Mandante de assassinatos de Bruno Pereira e Dom Phillips é indiciado pela Polícia Federal

A conclusão do inquérito, com indiciamentos envolvendo um total de nove pessoas, foi encaminhada à Justiça na última sexta-feira (1º). De acordo com a PF, apenas Rubén Villar (“Colômbia”) é apontado como mandante do crime

DA REDAÇÃO — A Polícia Federal indiciou Rubén Dario da Silva Villar, conhecido como “Colômbia,” como mandante dos assassinatos do indigenista brasileiro Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips. Os crimes ocorreram em junho de 2022, na região do Vale do Javari, no estado do Amazonas. A conclusão do inquérito, com indiciamentos envolvendo um total de nove pessoas, foi encaminhada à Justiça na última sexta-feira (1º). De acordo com a PF, apenas Rubén Villar é apontado como mandante do crime. Ele também está sob investigação por pesca ilegal e tráfico de drogas na região.

Organização e execução do crime

As investigações mostram que “Colômbia” desempenhou um papel central na execução e encobrimento dos assassinatos. Segundo a PF, ele forneceu cartuchos para as armas usadas, financiou atividades da organização criminosa, e coordenou esforços para ocultar os corpos das vítimas. O crime foi motivado pelas ações de fiscalização ambiental realizadas por Bruno Pereira, que interferiam diretamente nos interesses econômicos de criminosos da região.

A PF também revelou a influência do crime organizado no Vale do Javari, onde a pesca e caça ilegais são intensamente praticadas, resultando em ameaças a servidores de proteção ambiental e impactos socioambientais significativos. A presença de atividades criminosas ligadas a pesca predatória e ao tráfico de drogas é uma preocupação contínua para a segurança e preservação da região.

“Colômbia” foi indiciado pela PF por ser mandante das mortes de Bruno e Dom | Foto: Reprodução

Desaparecimento e descoberta dos corpos

Bruno Pereira e Dom Phillips desapareceram em 5 de junho de 2022, enquanto realizavam uma expedição no Vale do Javari. Eles foram vistos pela última vez a bordo de uma embarcação na comunidade de São Rafael, de onde seguiram em direção a Atalaia do Norte. O percurso de 72 quilômetros, que normalmente levaria apenas duas horas, terminou em mistério. Após dez dias de buscas, os restos mortais das vítimas foram encontrados em 15 de junho. Um dos suspeitos, o pescador Amarildo da Costa Oliveira, confessou sua participação nos assassinatos e indicou o local onde os corpos estavam enterrados.

Conforme a perícia da Polícia Federal, Bruno Pereira foi morto com três disparos de arma de fogo, sendo dois no tórax e um na cabeça. Dom Phillips foi baleado uma vez no tórax. As vítimas foram esquartejadas, queimadas e enterradas em uma área isolada da floresta.

Bruno Pereira: um defensor dos povos indígenas

Bruno Araújo Pereira era um dos maiores especialistas em povos indígenas isolados no Brasil. Pernambucano, ele deixou sua região de origem na década de 2000 para seguir o sonho de trabalhar na Amazônia, ingressando na Fundação Nacional do Índio (Funai) em 2010, após um dos últimos concursos públicos realizados pelo órgão. Durante sua trajetória na Funai, chegou a ocupar o cargo de coordenador regional do Vale do Javari, em Atalaia do Norte. No entanto, em 2016, deixou a função devido a conflitos com grupos criminosos que ameaçavam os povos indígenas e realizavam atividades ilegais.

Pereira era apaixonado por seu trabalho e respeitado por sua coragem em enfrentar o crime organizado na região. Casado com a antropóloga Beatriz Matos, que conheceu durante uma expedição no próprio Vale do Javari, ele era pai de dois filhos. Sua dedicação à proteção dos direitos indígenas e ao meio ambiente deixou um legado inspirador e um vazio imenso entre seus colegas e a comunidade que ele defendeu com tanto vigor.

Dom Phillips: um jornalista em defesa da Amazônia

Dom Phillips, de 57 anos, era um jornalista britânico veterano, conhecido por sua cobertura de questões ambientais e dos direitos indígenas na Amazônia. Ele colaborou com importantes veículos de imprensa internacionais, como “The Guardian,” “Washington Post,” “The New York Times” e “Financial Times.” Desde que se mudou para o Brasil em 2007, Phillips realizou diversas viagens pela região amazônica, buscando expor a crise ambiental brasileira e os desafios enfrentados pelas comunidades indígenas.

Natural do condado de Merseyside, na Inglaterra, ele era conhecido por seu amor pela Amazônia e pela sua determinação em relatar os problemas da floresta. Antes de se tornar jornalista, Phillips chegou a se aventurar no mundo da música, mas encontrou sua verdadeira vocação no jornalismo, onde seu trabalho foi amplamente reconhecido por sua seriedade e compromisso.

Repercussão e impacto

A morte de Bruno Pereira e Dom Phillips gerou grande repercussão internacional, evidenciando a violência que permeia a região amazônica e a luta constante de ambientalistas e defensores dos direitos humanos contra as forças do crime organizado. A atuação da Polícia Federal e a pressão da sociedade civil e de entidades internacionais foram determinantes para a condução das investigações.

Apesar da trágica perda, o trabalho dos dois continua a inspirar aqueles que lutam pela preservação da Amazônia e pelos direitos dos povos indígenas. A luta contra o crime organizado no Vale do Javari permanece um desafio, mas a memória de Bruno Pereira e Dom Phillips segue viva, impulsionando ações e políticas de proteção para a região e seus habitantes. (Portal Debate)

Relacionados

Postagens Relacionadas

Nenhum encontrado

Cadastre-se e receba notificações de novas postagens!