Cidade no interior do Pará registra mais picadas de cobra que a média nacional

De acordo com o estudo, os homens entre 19 e 59 anos são os mais afetados
Surucucu-pico-de-jaca é a maior cobra peçonhenta das Américas — Foto: Carlos Tuyama

Um estudo conduzido pelo acadêmico do curso de Ciências Biológicas Jorge Emanuel Cordeiro Rocha, em parceria com os professores Rodrigo Fadini e Samuel Gomides, revelou que a cidade de Oriximiná, localizada no oeste do Pará, registra um número de picadas de cobra acima da média nacional.

O Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), realizado no campus de Oriximiná da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), teve como objetivo traçar o perfil epidemiológico desses acidentes no período de 2007 a 2021, além de desenvolver estratégias para diminuir esses números preocupantes. Os pesquisadores acreditam que os resultados obtidos podem auxiliar na criação de políticas públicas voltadas para a educação ambiental e prevenção.

O professor Rodrigo Fadini, orientador do estudo, ressaltou a importância dessas pesquisas. “Esse trabalho se destaca pela importância de conhecer o perfil das vítimas e as situações em que os acidentes ocorrem. O estudo buscou compreender a dinâmica desses acidentes a fim de ajudar a traçar políticas de prevenção eficazes para combater essa situação grave que afeta muitos cidadãos no oeste do Pará”, afirmou.

O professor Samuel Gomides, coorientador da pesquisa, ressaltou a necessidade de estudos desse tipo na região. “A Amazônia brasileira está inserida em um contexto de alta diversidade étnico-cultural e carece de informações epidemiológicas robustas que permitam traçar políticas de vigilância e prevenção, a fim de proteger de maneira eficaz a população da região”, disse Samuel.

Como o estudo foi realizado?

O estudo foi realizado por meio da análise dos dados disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por meio do Sistema Nacional de Agravos de Notificação (SINAN), que registra dados desse tipo de acidente em um banco de dados integrado em todo o Brasil, acessível por plataforma online.

A pesquisa avaliou o número de acidentes por sexo, idade, região do município e a possível correlação entre os acidentes com serpentes e a intensidade das chuvas e o índice de cheias dos rios. O número de acidentes com cobras em Oriximiná é um dos mais altos do país.

No período de janeiro de 2007 a dezembro de 2021, foram registrados 1.345 acidentes com cobras em Oriximiná, com uma média de 89,67 acidentes por ano. A incidência média foi de 133,47 acidentes com cobras por 100 mil habitantes, um número significativamente mais alto do que a média nacional e o dobro da média da Amazônia.

Quem são os mais afetados? 

De acordo com o estudo, os homens entre 19 e 59 anos são os mais afetados, sendo que 95% dos acidentes ocorrem na zona rural durante o período chuvoso.

Apesar de Oriximiná ter cerca de 70 espécies de serpentes registradas em seu território, apenas duas delas são responsáveis pela maioria dos acidentes: a Bothrops atrox, conhecida como jararaca-do-norte ou malha-de-sapo, é responsável por 84% dos casos, enquanto a Lachesis muta, conhecida como pico-de-jaca ou surucucu, causa cerca de 11% dos acidentes.

Os acidentes envolvendo cobras peçonhentas representam um grave problema de saúde pública no Brasil e no mundo. Apenas no Brasil, ocorrem cerca de 30 mil acidentes por ano, e a Amazônia concentra a maior incidência do país. Esses acidentes afetam principalmente pessoas que vivem em áreas rurais e dependem de atividades agrícolas para subsistência. Muitas vezes, as vítimas não têm acesso efetivo a atendimento médico e soro antiofídico, o que pode resultar em sequelas graves e até mesmo morte.

De acordo com os pesquisadores, algumas medidas podem contribuir para a redução desses números, como a importância de atividades de educação ambiental e orientação para trabalhadores rurais, fornecimento de equipamentos de proteção individual, como perneiras e botas, além de um atendimento médico eficaz.

“Nossos dados reforçam a necessidade de políticas públicas de educação ambiental e prevenção, como o uso de botas e perneiras, especialmente nos meses chuvosos, quando historicamente as pessoas da região estão envolvidas na coleta de produtos florestais, como a castanha-do-pará, período em que a maioria dos acidentes ocorre”, explicam os pesquisadores. (Mateus Nino, com informações de g1 Pará)

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